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Nossa Senhora da Goma

          
Nossa Senhora da Goma

O seu belíssimo rosto redondo de Maria, onde o meu olhar se fixou, deixou-me maravilhado. Defronte a mim, de pé, ali estava a venerável e desaparecida escultura da Vir­gem com o Menino sob a invocação de Nossa Senhora da Goma que os Paradenses, em má hora, tinham deixado par­tir, não se sabia bem para onde, há pelo menos quatro dé­cadas. Foram anos a fio a ouvir os lamentos de uma paró­quia cujo arrependimento nunca lhes devolveu a Senhora da Goma que se albergava na atual Capela de Nossa Senho­ra dos Prazeres, no lugar de Cabo de Além. Como muitos se lembrarão, a Senhora da Goma está associada a uma len­­da sobre o nascimento dos “gomos” nas videiras depois de podadas. A escultura de Nossa Senhora apresenta-se de vestido, manto e véu, segurando na sua mão esquerda um Menino Jesus sentado. O Menino, de rosto ob­lon­­go enlaçado por cabelos curtos, está vestido de túnica vermelha comprida, segurando, tenuemente, o cordão do manto de Sua Mãe. Um encanto de Menino cuja subtil ges­tualidade sugere interpretações devocionais relacionadas com a Virgem do Leite. Por sua vez, Nossa Senhora da Go­ma traja vestido de decote redondo preso por um cinto de grande ponta pendente, sobreposto com um manto azul sobre as costas e um véu branco curto rematado por uma coroa de listel liso simples com flor-de-lis.


A historiografia diz-nos que a arte românica (séculos XI-XIII) trouxe o gosto pela imaginária e arrastou consigo múl­­tiplas representações marianas em estatuária e pintura. Desde então, percebe-se que é mais fácil multiplicar ima­­­­gens que obter relíquias e, por isso, já nos finais do pe­­­ríodo medieval (séculos XIV-XV) assiste-se a uma grande evolução da iconografia e do culto mariano que faz proli­ferar o aparecimento de santuários e capelas marianas, mui­tas vezes, à custa de outros santos patronos. Em Portu­gal as práticas, devoções e romarias marianas mais antigas realizam-se entre a Páscoa e Julho estando ligadas a mo­­­­tivações de cariz agrícola, à fertilidade e à abundância dos frutos da terra. Por isso, fazem-se múltiplas festas de pro­teção dedicadas a Nossa Senhora que vai recebendo no­mes variados, não só como Senhora da Goma mas também como Senhora do Campo ou Se­nho­ra dos Verdes. Em algumas terras a proteção é atribuída a Santos co­mo São Gabriel mas ao lon­go do tempo, cada vez mais, estes dotes divinos são atribuídos a Nossa Se­nhora passando Ela a ser vista como Aquela que dava a chuva ou o sol quando faziam falta ou evitava as pragas agrícolas, como a lagarta ou os par­dais. Ainda hoje, no do­­­mingo de Pascoela, no San­tuário de Nossa Senhora da Abadia (Bouro Sta Maria) realiza-se a solenidade de Senhora da Goma enquanto na nossa freguesia de Parada de Bouro esta festividade invoca-se na segunda-feira após o domingo de Pascoela. A devoção da Senhora da Goma é antiquíssima, provavelmente, muito anterior à da Senhora dos Prazeres ou Festa dos Gozos de Nossa Senhora que no Rito Bracarense também se celebrava no mesmo dia. Sendo um culto aparentemente muito mais recente, não deixa de ser curioso que a Senhora dos Prazeres tenha ganho primazia como padroeira da Capela no Cabo de Além apesar dos Paradenses nunca terem perdido da memória coletiva uma íntima afeição à Senhora da Goma, fundindo e criando uma dupla venera­ção. Não será caso único mas é, certamente, raro no país. Património religioso da nossa paróquia, à linda escultura do século XIV em terracota policromada agora encontrada falta o braço direito que também reclama ser descober­to. Mais um mistério que granjeia ser revelado…!
Paulo Silva
2019-12-27


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