Diversos

“Histórias que contam…”

          

Acabo de ler, na última edição do JV, que, recentemente, Vieira do Minho perdeu al­­guém que durante a sua vi­da marcou de forma indelével o despertar e o pulsar do de­­sen­volvimento desta concha aninhada aos pés da Ca­brei­ra, nomeadamente a nível educacional e cultural.
Falo-vos da Dr.ª Maria Jú­lia Simas Santos, cujo nome aprendi a ler na placa que en­ci­mava aquela porta interior, no antigo edifício da velhinha Far­mácia Freitas, e que a de­si­­gnava como directora-técnica.


Recordo também as muitas ve­zes que, ainda criança, fui consultado pelo seu mari­do, o ilustre e benemérito Doutor Simas Santos, que, sen­do açoriano, adoptou Vi­ei­­­ra co­mo a sua terra, e, de quando em vez, a Dr.ª Maria Jú­lia tam­bém aparecia no con­sul­tó­rio médico. Recordo-a com aquele ar de mulher irrequie­ta, frenética e activa.
Depois, já como aluno da ve­­­lhinha Escola Vieira de Araú­jo, lembro-me dela co­mo sua directora, aliás, a pri­mei­ra. A ela e a outros impul­sio­nadores, se deve a realidade da referida Escola, no con­ce­­lho de Vieira, e que permitiu que muitos jovens, à data, e nos quais me incluo, pudessem dar continuidade aos es­tu­­dos, para lá da 4.ª classe, sem terem de sair do concelho, pelo menos até ao 9.º ano de escolaridade (antigo 5.º ano).
Mais tarde, já nas novas ins­­­talações da Escola, na Ca­bi­­­ne, quando frequentava o 9.º ano de escolaridade, vim a encontrar a Dr.ª Maria Jú­lia, como minha professora na disciplina de Saúde! Ob­via­­mente, continuava frenéti­ca e sempre activa. Inesquecí­veis as aulas de Saúde, por si mi­nistradas.
Ao recordá-la aqui, em jeito de homenagem, vou contar-vos um dos ensinamentos que ela nos transmitiu, e que eu fiz questão de levar à letra, pelo que, lá em casa, ter­mi­­­nei com um velho hábito, in­­troduzindo um bem mais hi­­giénico.
Na minha aldeia, como em mui­­tas outras, cozia-se o pão no velho forno a lenha, que qua­se todas as casas possuíam. Ritual sagrado que pas­sa­­va pela masseira, onde a fa­ri­­­nha levedava, e depois era le­­­vada ao forno, já aquecido. Re­­cordo a minha avó, a suar em bica, metendo a massa ao for­­no, com a velha pá de ma­dei­­ra, que depois de cozida, se transformava numa sabo­ro­sa broa.
Ora, para tapar a porta do for­­­­no, numa tradição já secular, mas pouco higiénica, a mi­­­nha avó utilizava a bosta de gado bovino, com a qual bar­­­rava todas as frinchas da por­­tinhola do forno, impe­din­­do que o calor saísse. A bos­ta secava e tornava-se uma espécie de cimento es­tan­­que à saída do calor.
Sendo eu o puto lá de casa, já imaginam a minha tarefa, em dia de cozedura do pão, nor­­malmente uma vez por se­ma­na. Lá ia eu, contrariado e cheio de nojo, apanhar a bosta para tapar a porta do for­­no. Utilizava uma velha te­lha, que enchia de bosta, apanhada na calçada, no eido… às ve­zes nas cortes do gado.
Numa aula de Saúde, a Dr.ª Ma­­­ria Júlia, conhecedora des­­­­tas tradições à volta do pão, alertou-nos para o facto de podermos alterar aquele ve­­­lho hábito de tapar a porta do forno com a bosta do gado, pois seria mais higiénico uti­li­­­zar o farelo que resultava de pe­­­neirar a farinha, e que mo­lha­­­­do e amassado em água, aca­­bava por ter o mesmo efeito de estanque que era atri­buí­­­­do àquela. No fundo, se­gun­­do ela, dava menos trabalho, não tinha custos adicionais, e, sobretudo, tornava-se um serviço mais limpo e hi­gié­nico.
O único senão, dizia-nos a Dr.ª Maria Júlia, era sermos ca­­­pazes de vencer a resistência lá em casa, pois, às vezes, os mais velhos custam a dobrar…
Que bela lição foi aquela! En­­­quanto ela falava, eu só me in­­terrogava porque raio nunca me tinha lembrado disso… Pro­­meti a mim mesmo, nunca mais apanhar bosta, para ta­­par a boca do forno!
Chegado a casa, tratei logo de convencer a minha avó a uti­­­lizar o novo método que ti­nha aprendido com a Dr.ª Ma­­­ria Júlia. A princípio reni­ten­­­te, a minha avó lá acabou por aceitar fazer a experiência, com o supracitado farelo.
A receita resultou em pleno! Como das outras vezes, as broas saíram impecavelmente cozidas e saborosas, pelo que, a partir daquele dia, a por­­ta do forno passou a ser ta­pa­da com o farelo amassado.
Que feliz fiquei por ter ter­mi­­­nado com um velho hábito, mas sobretudo por não ter de voltar a meter as mãos na bosta!
O tempo foi passando e, tal­­­vez por vergonha, nunca ti­ve coragem de contar este epi­­­­­sódio à Dr.ª Maria Júlia, nem sequer lhe agradecer por aque­la inesquecível lição.
Agora, que a Dr.ª Maria Jú­­­lia já partiu, e a idade faz com que a vergonha já não me apo­­­­quenta, trago a público es­­ta peculiar história, que não é mais do que a minha sin­­gela homenagem a alguém que marcou o meu cres­­­­cimento, a minha formação e educação. Alguém que pro­­­curou e conseguiu fazer al­­go de meritório por Vieira do Mi­nho.
Segundo Lamartine, “a cin­­­­za dos mortos é a criadora da pátria!”. Que a cinza da Dr.ª Maria Júlia Simas Santos, seja criadora de incentivo e força aos vieirenses para no­­­vas e saudáveis conquistas. Como dizia Kierkegard, “a vi­da só pode ser compre­en­­­­dida olhando-se para trás, mas só pode ser vivida olhan­­do-se para a frente!”
Que a memória da Dr.ª Ma­­­­­­­ria Júlia Simas Santos per­­­­­dure na memória colectiva das gentes de Vieira, pois ela merece ser recordada co­mo uma insigne vieirense!
Que descanse em paz!
José de Castro
2020-02-13


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