Diversos

“Heróis com pés de barro…”

          

Começo esta minha dissertação por um episódio singular, ocorrido na estação do Metro dos Restauradores, em Lisboa, nos idos anos noventa. Saindo do Metro naquela estação, e acompanhado pelo meu amigo Lucas, nome obviamente fictí­cio, pois não tenho autorização para aqui expor o seu verda­dei­­ro nome, caminhávamos lado a lado, naqueles corredores sub­terrâneos, no meio da imensa multidão que ali circulava. De entre uma caterva de gente desconhecida, cruza-se con­nos­co o actor Fernando Mendes – o Gordinho! Coisa normal em Lisboa. Normal pensava eu. Quando me apercebo, tinha per­dido o meu amigo Lucas, que já não caminhava ao meu la­­­do. Fiquei parado no meio do corredor a ver se o vis­lum­bra­­v­a. Nisto, chega ele à minha beira, ofegante e eufórico, e diz-me:


- Não viste?! Era o Fernando Mendes… foi-lhe pedir um au­­­tógrafo, mas já não consegui apanhá-lo, entrou para o Metro.
- Oh! Lucas… ainda se fosse o Gentil Martins! – retorqui, de­­­­­siludido, ainda que sem intenção de beliscar a reputação do Fernando Mendes, entenda-se.
- Quem é o Gentil Martins? – questionou, surpreendido, o Lu­cas.
Pacientemente, lá lhe expliquei que era um ilustre cirurgião plástico, que tinha separado umas gémeas siamesas etc., esse sim, a merecer um pedido de autógrafo e uma corrida pa­ra o apanhar. Outros haveria, mas, de momento, foi aquele que me surgiu.
Ora, neste tempo de pandemia, este episódio, já arrecadado nos socalcos da memória, veio-me à lembrança. Quase todos nós, uns mais de que outros, criámos os nossos heróis. Normalmente, são jogadores de futebol, actores de cinema, can­­tores famosos, pilotos de automóveis, figuras da TV etc. Pessoas que, inconscientemente, idolatramos e tornamos he­róis. Os ídolos das nossas vidas!
No meu caso, lembro-me do Damas, do Yazalde… recente­me­n­­­­te do Cristiano Ronaldo, sendo que, a nenhum deles cor­re­­­­ria para pedir um autógrafo, e jamais os chegaria a en­deu­sar. Se há alguém a quem gostava de ter falado, e pedir-lhe-ia uma dedicatória num dos muitos livros que tenho dele, esse alguém seria Miguel Torga! Infelizmente, nunca tive essa opor­tunidade, que para mim se tornaria divinal.
Mas voltando aos heróis que o povo vai criando, e que os Ór­­gãos de Comunicação Social vão ajudando a cimentar, esta pan­­demia da COVD 19 veio provar o quanto andamos engana­dos, o quanto as nossas escolhas são falíveis, postiças, sem fun­do sustentável. Bastou um pequeníssimo “bicho”, para nos pro­var que os nossos heróis, aqueles por quem enchemos está­dios e recintos enormes, por quem discutimos, por quem nos zan­gamos, por quem exibimos a camisola, por quem ficamos ale­gres ou tristes, por quem passamos uma noite na fila para con­seguir um bilhete para o concerto, etc. afinal, não passam de heróis com pés de barro! A culpa não é deles, é nossa!
Não! Não é que tenham falta de mérito naquilo a que se de­dicam; que não sejam bons naquilo que fazem; muitos deles os melhores do mundo na sua arte. O cerne da questão, julgo eu, reside na importância da coisa a que se dedicam, e se ela é merecedora de a tornarmos motivo de heroicidade. Pe­lo menos, antes do “endeusamento” deveríamos reflectir nis­so. Porventura, chegávamos à conclusão que também nós se­remos heróis, pois, talvez sejamos bons e dedicados no que fa­zemos, ainda que sem as luzes da ribalta. Por outro lado, reflectir para hierarquizarmos as coisas que realmente impor­tam. A saúde em primeiro lugar, obviamente!
Nesta pandemia que arrasou o mundo, onde a morte, o me­do e o desconhecido andam de mãos dadas, houve alguém que ousou enfrentá-los, pondo em risco a própria vida. Alguém que sabendo o significado de intrepidez, sobretudo a pôs em prática. Alguém que passa fora do alcance dos holofotes da fama, mas que tem a coragem de dizer: “estou aqui, con­­tem comigo para a batalha!”. A batalha pela nossa saúde!
Na primeira linha desta tremenda batalha não estiveram he­­­róis com pés de barro! Estiveram e estão heróis com pés de gen­­te! Heróis com que nos cruzamos na rua, no parque, no su­­­permercado… mas que não damos importância, nem co­nhe­­cemos. Aliás, também eles não querem ser conhecidos, mui­­to menos como heróis! Falo-vos dos incansáveis médicos, enfermeiros, técnicos de saúde, auxiliares, assistentes dos la­­­res, bombeiros, forças de segurança, militares, os investiga­do­­res e cientistas, os empregados dos supermercados, das pa­­darias, das bombas de combustível… os recolhedores do li­­xo e tantos outros trabalhadores e voluntários anónimos que de­ram e dão o melhor de si para mitigar os efeitos catastróficos desta pandemia, sendo que, alguns, infelizmente, pagaram com a própria vida a sua ousadia, e muitos deixaram de cui­dar dos seus, para cuidarem dos outros!
Estes são de facto os nossos verdadeiros heróis! Os Gentis Mar­tins, a quem o meu amigo Lucas deveria correr a pedir um autógrafo, pois os outros são apenas heróis com pés de bar­­ro, independentemente de todo o mérito que tenham, naquilo que fazem.
Aqui, quero ressalvar uma palavra de agradecimento aos ar­tistas das várias artes, os quais se reinventaram para, ao seu modo, ainda que confinados, nos darem um lenitivo para a alma, através das redes sociais ou da TV.
E amanhã, quando tudo isto passar? Bem, não querendo ser presciente, acredito que voltamos à fragilidade dos heróis de pés de barro; aos que aparecem nas revistas, nos jornais, nas TV. Voltaremos a idolatrar Messis e Ronaldos, a encher estádios e outros recintos, a discutirmos os erros do ár­bi­­tro, a cegueira do VAR; a comprarmos revistas cor-de-ro­­sa, a vermos o “big brother”, “quem quer casar com um agri­­­cul­tor”, “passadeira vermelha” e outros pífios e inenar­rá­­­veis programas… a idolatrar Cristinas etc.
Quanto aos verdadeiros heróis, creio que continuarão a lutar, a ser esquecidos, mal pagos, às vezes humilhados, pouco di­gnificados… a cruzarem-se connosco na rua, no autocarro, no Centro Comercial, enfim, por aí, como qualquer um de nós, honradamente desconhecidos!
Ah! Quem me dera estar enganado!
José de Castro
2020-06-15


Comentários

  Comentar artigo

Nome

Email

Comentário