Editorial

Igrejas vazias um desafio para renascer

          
Igrejas vazias um desafio para renascer

O Sinal das Igrejas Vazias – Para um Cristianismo que volta a partir, é o título do livro de Tomás Halik, editado por Paulinas, Lis­boa, 2020 e que Frei Domingos Celebrin comenta em texto pu­bli­­cado na rev. Mensageiro de Santo António deste mês de Maio.


Agora que a emergência do coronavírus está a diminuir, agora que os “picos” começam a baixar e todos estamos com uma grande vontade de “regressar ao nor­mal”, penso que chegou o momento de refletirmos, se­riamente, sobre o que aca­bamos de viver e continuaremos ainda a viver durante muito tempo.
Não me refiro apenas à pandemia da COVID-19, mas sobretudo ao estado da nossa civilização, que este fe­nómeno global nos revela. Em termos bíblicos, po­de­ríamos afirmar que tudo isto é um sinal dos tempos. O imparável processo de glo­balização atingiu o seu pi­co: a vulnerabilidade global de um mundo global tor­nou-se evidente.
No ano passado, antes da Páscoa, a catedral de Notre-Dame, em Paris, incendiou-se; este ano, nos vários con­ti­nentes, em centenas de mi­lhares de igrejas, sinagogas, mesquitas e outros tem­plos, neste momento não há celebrações religiosas. Os cristãos viveram a Pás­coa confinados em casa, os muçulmanos experimentam agora a mesma dor no Ra­madão.
No entanto, a desertifi­ca­ção das igrejas, sobretudo no Ocidente, já vinha de trás e se nada fosse feito, dentro de alguns anos ficariam de­ser­tas em boa parte do mun­do. 
Se não fizermos uma séria tentativa para mostrar ao mundo um rosto com­ple­tamente diferente do cris­­tianismo, este tempo de edi­fícios eclesiais vazios po­de­rá tornar-se, simbolicamente, o sinal de um futuro não demasiado distante.
Importa, talvez, aceitar a abs­tinência atual dos serviços religiosos e das ativida­des da Igreja como “sacramento de salvação”, como uma oportunidade para parar e para nos comprome­ter­mos numa reflexão profunda diante de Deus e com Deus.
É urgente e necessária uma reforma para voltar ao co­ração do Evangelho, para viajar até às profundezas, che­gar ao âmago do nosso “ser­mos e tornarmo-nos cris­­tãos”.
No dia anterior à sua eleição o cardeal Bergoglio (atual Papa Francisco) citou uma passagem do Apoca­li­pse, na qual Jesus está à por­ta e bate. E acrescentou: “Hoje, Cristo está dentro da Igreja a bater à porta e quer sair”. Eis o sinal: Cristo, ho­je, quer sair das igrejas.
Na Páscoa deste ano, ao ce­lebrar-se a Missa sem po­vo foi proclamada a passagem do Evangelho sobre o tú­­mulo vazio, dentro de igre­­jas vazias. Mas, se o vazio das igrejas nos lembra o tú­­mulo vazio, não podemos ignorar a voz que ressoou do alto: “Não está aqui. Ressuscitou. Vai à vossa frente a caminho da Galileia”. 
As igrejas vazias durante o “estado de emergência” e no “desconfinamento” dos “pi­cos” da pandemia não são “uma desgraça” mas “anúncio profético”. É ur­gen­­te descobrir e interpretar estes novos “sinais dos tem­pos” e interrogarmo-nos sobre o que faz a Igreja, (que são todos os que acre­di­tamos na Ressurreição de Cristo), em tempos de co­ro­navírus? E não ficarmos em “comunicados” sobre a Igre­ja que tem estado “em saí­da”, que é “marca­da­men­­te laical e sinodal” e tam­bém “hospital de cam­pa­nha”, para justificarmos a permanência nas tradicio­nais formas de religião e nos­sas antigas ideias sobre Cristo.
L.J. Fonte: Frei Domingos Celebrin, Mensageiro de
2020-05-28


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