Entrevistas

Entrevista de D. Augusto César, bispo emérito de Portalegre/Castelo Branco

Conta o que o atrai aos santuários, o confessionário

          
Entrevista de D. Augusto César, bispo emérito de Portalegre/Castelo Branco

Em conversa informal com D. Augusto César Alves Ferreira da Silva, bispo emérito de Portalegre/Castelo Branco e nosso conhecido de há muitos anos, pelas suas estadias em S. Bento da Porta Aberta, onde passa alguns dias de Verão a confessar os peregrinos deste santuário, O Jornal de Vieira registou algumas no­tas do percurso deste sacerdote de Celorico de Basto que foi também o 2º bispo de Téte, em Moçambique, e “esteve prestes” a ser arcebispo de Braga.


“Sou do Minho, nascido em [15.3.1932] Celorico de Basto, freguesia de Ferven­ça. A minha mãe deixou-me com dois anos e meio e foi pa­­­ra o céu. O meu pai, tinha andado na 1ª Guerra Mun­­­dial, deixou-me com 12 anos e foi a minha avosinha que teve de olhar por mim e mais quatro irmãos, mas um já não conheci. Ficamos três e os três fomos para o se­minário diocesano de Bra­­­ga. O mais velho, pas­sa­­do pouco tempo, achou que não tinha vocação e saiu. O mais novo andou até ao 5º ano, saiu, fez o ser­­­viço militar, estudou e vol­­­tou a entrar comigo para o seminário, desta feita em Pombeiro (Felguei­ras). En­quanto eu fazia o exame de ad­­missão, o Provincial dos Vi­centinos andou a mostrar-lhe a casa, e ao notar que ele tinha certos estudos e per­­guntou-lhe se não gostaria de ser ali professor. O meu irmão respondeu que não. Se fosse para continuar ficava. E ficou e ordenou-se”, conta-nos D. Augusto Cé­­sar.
O bispo emérito Frequentou o Seminário de S. José, dos Padres La­za­­­ristas, em Pombeiro, fez o noviciado em Santan­der (Es­­­­panha) e regressou a Por­­­tugal para completar os es­tudos filosóficos e teo­ló­gi­­cos.
Ordenado sacerdote em 1960, logo partiu para Mo­çambique, tendo sido professor e reitor do seminário de Que­­­limane, e, passados dois anos, assumiu a direcção do Seminário Maior de S. Pio X, em Lourenço Marques, até 1970. Em Julho des­te mesmo ano passou a desempenhar o cargo de pro­­­vincial da Congregação da Missão (Padres Vicenti­nos), “mas como fiz a coisa mal feita, mandaram-me pa­ra Tete. Foi então que S. Pau­­­lo VI me nomeou bispo”, tendo sido ordenado em 21 de Maio de 1972 pelo então Cardeal Patriarca de Lisboa, D. António Ribeiro.
“Estive quatro anos em Te­­­te em plena guerra. Tinha um jeep, mas tinha a facul­da­de, que não tinha qualquer bispo, de requisitar um avião para ir a qualquer lado on­­de havia guerra. E ali esti­ve quatro anos, três antes da independência de Mo­çam­­­­bique e um depois da in­­­dependência”, refere D. Au­­­­gusto César.
Após os acontecimentos pro­vocados pela descoloni­za­­­ção, convicto de que a no­meação de um Bispo mo­çam­­bicano residencial se ajustava melhor às circuns­tân­cias da época, pediu a re­­­signação que foi aceite pe­­­lo Papa Paulo VI, tendo re­­gressado a Portugal em Ju­lho de 1976. Em 28 de Se­tembro de 1978, o Pa­pa Jo­­ão Paulo I aceitou a re­si­­gnação de D. Agostinho Lo­­pes de Moura e nomeou Bis­­po de Portalegre-Castelo Branco D. Augusto César, talvez o único bispo nomea­do por este Papa que apenas esteve 33 dias na Ca­dei­ra de Pedro.
“Em Portalegre estive só 26 anos. Pedi a resignação aos 72 porque tive a sensação que 26 anos era muito tem­po e os padres precisavam que viesse um bispo no­­­vo para dar “uma volta” à dio­­cese”, e D. José es­te­ve lá 4 anos” - diz-nos o bispo emérito a sorrir. Bispo Emé­rito de Portalegre e Castelo Branco, desde 2004, D. Au­gusto César po­dia ficar na dio­­cese (onde os bispos emé­ritos portugueses têm di­reito a “cama e mesa”) ou ir para a congregação dos Pa­­dres Vi­centi­nos/Lazaris­tas, mas ha­via algo que sem­pre o atraiu a Fátima, o confessionário. “Como bispo o meu tempo era escasso. Eu confessei muito, mas em Fátima era diferente. “Simplesmente as pessoas ho­je querem mais conversar do que se confessar. As pes­­soas têm necessidade de conversar e começaram a procurar-me, quer no Santuário quer em casa. A reali­dade é essa, ali [Fátima] há muitas comunidades religio­sas e como sabem que sou bispo e tenho uma certa ex­pe­riência [de comuni­da­des religiosas] pedem-me para se confessarem. Sabe, os pa­­dres hoje têm muitas pa­ró­­quias, muito trabalho. Aqui o padre Adelino, já nos conhecemos há muito tempo, pede-me para ajudar nas comissões e celebração da Eucaristia e eu sempre que posso procuro ajudar”.
Sobre a sua presumível in­­digitação para suceder a D. Eurico Nogueira no go­ver­­­­no da arquidiocese de Bra­­­ga, D. Augusto César con­­­sidera um pequeno epi­só­dio. “Foi episódio sem im­portância. D. Eurico queria duas coisas [que não con­se­­guiu]: uma, que a diocese de Coimbra passasse a Ar­qui­diocese; outra, que o seu sucessor fosse um bispo mais velho para fazer uma transição para um mais no­vo. Simplesmente não acon­­teceu. Eu teria que as­su­­­­mir, naquela idade, as gran­­des exigências da ar­qui­­­dio­cese de Braga e eu achei que não. Apenas escrevi ao Santo Padre, dizendo que tinha feito 25 anos de bispo e teria dificuldade em assumir novas respon­sa­­bilidades, e não disse mais nada. A resposta veio pe­lo Núncio: “o Santo Padre disse “que continue” [em Por­talegre]. E eu fiquei tranquilo e sossegado”.
O bispo emé­rito de Porta­le­­gre referiu-se ainda à importância dos San­tuários de Fátima e São Bento da Porta Aberta por on­de passam milhões de peregrinos. “Estes santuários, que movimentam muita gente” e este santuário “está muito cuidado e há uma vivência de mui­­tos emi­­grantes”. Os san­tuários “são muito im­por­­­tantes porque dão-nos oportunidade de na homilia de chamar a atenção do es­sencial. E o es­­sencial é sermos fraternos, é sermos família, é ser­mos Igreja.” Os santuários têm hoje uma missão que as paróquias “já não conseguem cumprir”, dado o de­crés­cimo da fre­quência religiosa.
2019-10-07


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