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HOLOCAUSTO

Dachau, o primeiro campo dos indesejáveis

          
HOLOCAUSTO

A memória do horror está no meio das casas, a um passo do centro habitado da pequena cidade de Dachau, agora como então. Os muros do campo de concentração correm ao longo da estrada principal que em pouco mais de 20 minutos conduzem a Munique.
O trilho que percorremos a pé é o mesmo sobre o qual eram empurrados os deportados à chegada, a Lagers­trasse, ao fundo da qual se en­contro o “Jourhaus”, o edi­fício de entrada principal que albergava os departamentos administrativos e de comando do campo.


Ultrapassado o grande portão em ferro forjado com a famigerada frase “Arbeit macht frei”, acede-se à gigantesca praça onde diariamente, de manhã e ao cair da noite, era feita a contagem e se decidia o destino dos prisioneiros.
O campo de concentração de Dachau foi o primeiro do na­zismo, o único que existiu ao longo dos 12 anos do Ter­ceiro Reich. Heinrich Him­mler, ao tempo comandante da secção de Munique das SS, inaugurou-o a 22 de março de 1933, apenas dois meses após a nomeação de Adolf Hitler como chance­ler.
A partir do fim de 1940 chegaram em massa religiosos cristãos: para o campo foram deportados 2579 pessoas entre padres, seminaristas e frades católicos, juntamente com 141 pastores protestantes e padres orto­do­­xos. O Vaticano não con­se­guiu impedir a sua deportação, mas pelo menos conseguiu que fossem enviados todos juntos para Dachau.
As histórias de quem foi obrigado a viver e a morrer em Dachau entre 1933 e 1945 retomam forma no grande museu instalado no interior do antigo edifício do economato, uma construção baixa e longa ao lado da praça. As suas paredes internas permaneceram intactas, co­mo se o tempo tivesse parado.
Longas filas de visitantes e estudantes percorrem as salas diariamente, confrontando-se com o horror, à pro­­cura de uma explicação que continua por encontrar dentro do contexto da ra­cio­nalidade humana.
Os nazis prenderam-nos porque se opunham ao programa de eutanásia, porque tinham integrado a Resistência ou eram apenas suspeitos de ter contribuído, de alguma forma, para a luta anti-nazista. Muitos religio­sos foram deportados simplesmente porque tinham ousado condenar o regime a partir dos púlpitos. Foram desde logo isolados dos outros prisioneiros e alojados na barraca 26, o denominado “Pfar­rerblock” (bloco dos padres), que hoje já não existe.
As pressões do Vaticano con­seguiram com que se abrisse uma pequena capela no interior do bloco 26, onde a 21 de Janeiro de 1941 foi celebrada a primeira mis­sa no campo. O sacrário foi cons­truído, às escondidas, na oficina dos carpinteiros, mas o padre era obrigado a celebrar sozinho. Aos detidos era proibido par­­ticipar, e a Comunhão era distribuída secreta­me­nte, ao preço de graves riscos.
Submetidos ao mesmo tratamento desumano de to­dos os outros prisioneiros, 1034 religiosos católicos não saíram vivos do campo, mor­­rendo de fome, de exaus­tão, de prostração e de doenças. Em muitos deles foram igualmente realizadas experiências médicas fatais. Foi um lento martírio que recordou as perseguições sofridas pela Igreja dos primeiros séculos, e trans­for­mou o campo báva­ro no maior cemitério de sacerdotes católicos do mundo.
Os registos do museu testemunham o encarniça­men­to dos nazis em relação aos religiosos polacos, muitos dos quais se recusaram a aceitar a cidadania alemã que lhes teria garantido um tra­tamento especial. Num só dia, 5 de Maio de 1942, foram mortos 22 padres polacos.
Fonte: L’Osservatore Romano
2020-01-29


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