Opinião

A ciência de saber calar

          

Decidi chamar ciência, à capacidade de saber calar, porque como qualquer aptidão, desenvolve-se por atos livres da vontade.
Quando o silêncio é imposto, podemos ter de ficar calados, mas não o podemos considerar virtude. Digamos que é uma sujeição a uma qualquer ditadura, seja política ou ideo­ló­­gica. Não só não é virtude, como pode até ser uma grande co­bardia. É da virtude que hoje falo.


Quando somos capazes de refletir, “remar contra correntes”, assumir diferenças, então sim, estamos a desenvolver vir­tudes, desde que o façamos conscientes que isso nos me­lho­ra, e estamos a criar harmonia à nossa volta.
O silêncio é a porta que abrimos para muitas aptidões ne­ces­sárias ao conhecimento específico ou global. Isto é com­pre­ensível a todos.
Porém hoje, o silêncio não tem ambiente próprio, condições propícias onde possa “estar”, ou permanecer algum tem­­po. A um amigo abrimos a porta, ao silêncio, temos pri­mei­­ro de escolher o terreno e levantar muros de proteção que evitem a incursão dos inimigos.
Num mundo tão barulhento como o nosso, uma conquista assim exige uma defesa bem cuidada.
Onde sinto mais dificuldade em conquistar um espaço pa­ra o silêncio, até porque é necessária a sua presença e raras ve­zes lhe é devidamente concedida, é na celebração da Euca­ristia.
Com a desculpa do “fez-se sempre assim”, tornamo-nos pre­guiçosos no dever de procurar saber se fazemos bem ou mal. O slogan do cantar, ser “rezar duas vezes”, tem descul­pa­do a manutenção duma religiosidade popular reconhecida, mas identificada apenas como meio de conduzir a uma ma­turidade espiritual sem qualquer limite. No campo litúr­gi­­co, que nos educa para o relacionamento pessoal com Deus, ficamos à porta.
Talvez porque tendemos para o exagero, após a reforma li­­túrgica imposta pelo Concílio, passamos a dar um exagera­do relevo aos cânticos, sacrificando o canto litúrgico que du­ran­­te séculos alimentou o gosto pelo sagrado e o silêncio oran­te, incontestáveis suportes da fé.
A reconquista de boas práticas já se vai notando nas cidades, com fieis mais atentos aos ventos de mudança. Oxalá que, a terras do interior, comecem a chegar brisas transfor­ma­doras.
A responsabilidade dos atrasos de conversão, nas paróquias, costuma ser imputada ao clero. Tremenda injustiça!
Con­tinuarei a “partilha”, no próximo número.
M. Leonor Coelho
2020-02-13


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