Opinião

Refletir é um dever de cidadania

          

Há momentos em que somos confrontados com particulari­dades vivenciais, que face às suas singularidades, nos conduzem para uma reflexão realista do ponto de vista afetivo e mo­ral. A forma como as sociedades procuram se organizar no enquadramento económico e familiar, depende da conjun­tura do tempo em que se encontram integradas, que não é es­tático, mas sujeito a um conjunto de variáveis algumas im­pre­visíveis. Essa imprevisibilidade poderá ser favorável ao seu de­senvolvimento, ou pelo contrário, criar descontinuidades que destabilizam e até arruínam. Porém, quando o aparelho de governação, onde se integram os municípios e as freguesias, estão atentos às mudanças conjunturais, agindo em confor­mi­dade, é mais fácil reconduzir os meios imprescindíveis à esta­bilidade das comunidades.


Sou natural de Rossas, deixando aos 11 anos de ser uma re­si­dente presente. Ainda criança sonhava com a descoberta de novos horizontes, estes suscitados por algum conhecimento do que se passava fora da zona de residência. Tive a vantagem dos meus pais me proporcionarem a possibilidade de rea­li­zar o sonho idealizado. Final da década de 50 do século XX, com uma estrutura social maioritariamente pobre e com um ín­dice de analfabetismo elevado. As crianças andavam descal­ças, com vestuário escasso e mal alimentadas. Vivia-se em família onde os idosos tinham o seu lugar.
Governos e Municípios eram indiferentes às condições de vida da população. Não havia esperança de crescimento económico, o mundo rural estava encurralado numa estrutura de produção obsoleta, sem perspetivas de uma sobrevivência mais digna, sem assistência na saúde e com uma longevidade curta. Sair, isto é, procurar outros destinos, era na prática a única perspetiva. O Brasil continua a ser procurado. Para aqui também partem famílias completas. Para as Províncias Ultramarinas o Governo facilita as migrações que haviam sido dificultadas. A desertificação acentua-se na década de 60 com a emigração massiva para França, Alemanha e outros. Também há aqueles que partem para o litoral urbano onde a industrialização, apesar de lenta, oferecia uma melhor oportunidade. A guerra colonial é um outro flagelo.
O Minho rural é abandonado. E apesar da sua evidência, Governos e Municípios continuaram sem praticamente nada fazer. Os que ficam são os mais velhos e aqueles que, ainda sonham que alguma solução ainda poderia ser encontrada. A generalidade dos que partiram acabaram por se organizar familiarmente e transformar esses destinos no lugar de fixação e criação dos seus filhos. Estes integraram-se numa conjuntura cultural que passou a ser a sua.
Hoje, quando visito esses lugares encontro um cenário profundamente envelhecido, com idosos a viverem sós, com sinais evidentes de pobreza, de escassez de apoio moral e social. Com transportes escassos, assistência médica deficitária, sem o carinho e o afeto de familiares que nessa fase da vida são fundamentais. Encontram-se situações que afligem! O património, na sua maioria encontra-se abandonado estando, deste modo, impedido de contribuir para a economia local. Entretanto o mundo mudou, hoje vive-se o tempo das novas tecnologias cada vez mais presentes na vida de todos nós. Uma comunicação recente sobre novas soluções tecnológicas, diz ser “a vez da agricultura inteligente. Adiantando: “a evolução tecnológica chegou ao setor agrícola para facilitar a vida das pessoas e agilizar processos. […]. A imagem do agricultor a sachar a terra do nascer ao pôr do sol numa exploração agrícola já faz parte das memórias passadas”. Interessante!
Elisa Soares
2020-02-27


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