Opinião

Sala de espera…

          

Sala de espera, num Centro de Saúde.
Uma dúzia de rostos so­rum­báticos, o meu incluído, aguardam pela chamada, ansiosos que no altifalante vi­bre o seu nome.
Alguns parecem-me doentes; outros disfarçam as dores que os apoquentam. Há duas crianças, de idade próxima, não mais de três anos. São acompanhadas pelas respectivas mães.
A menina chegou ao colo. O menino vinha às costas da progenitora, preso numa faixa branca, naquele modo tão característico do povo africano, em que as mulheres transportam os filhos ainda pequenos.


Ambas as crianças são bastante sossegadas. A menina brinca com um pelu­che, um Panda; o menino, com uns olhos lindos e profundos, entretém-se com o telemóvel da mãe. De quando em vez, num instinto já natural, lá vai deslizando o dedo pelo ecrã do aparelho. Depois, compenetra-se, sem pestanejar, nas imagens que vão passando, talvez um jogo de bonecos.
O altifalante vibra o nome dele. Maquinalmente, a mãe levanta-se, e ele segue-lhe os passos em direcção ao consultório médico, sem, contudo, tirar os olhos do ecrã portátil, que segura en­tre as mãozitas.
A menina, naquele seu instinto de futura mamã, procura adormecer o pequeno Panda. Pouco depois, toma o telemóvel da mãe, e, agora, é ela a dedilhar no pe­queno ecrã, como gente grande.
Por momentos, desprendo o olhar da menina, e olho em redor os sorumbáticos adultos. Estão todos, novos e mais idosos, de pescoço vergado olhando e dedi­lhan­do no telemóvel.
Fico a pensar no poder, inegável, do pequeno artefacto que nos acompanha. Aparelho que nos mete o mundo no bolso, que nos localiza, que nos ajuda a pedir socorro, mas que nos silencia, nos torna solitários, ainda que rodeados de gente. E não olha à cor da pele, à condição social, à data de nascimento… Domina-nos e pronto!
Felizmente, a menina voltou à brincadeira com o seu Panda. No altifalante soou o seu nome, e lá vai ela, agar­­rada à mãe, com o pe­lu­che debaixo do braço…
Aos poucos, a sala de espera vai ficando vazia de gente e de telemóveis. O meu continua no bolso quieto e silencioso, enquanto eu vou escrevinhando este pequeno texto, que não deixa de ser a minha forma de solidão. Que saudades daquele bichanar no velho con­sultório do Dr. Simas, onde os pacientes, ainda que desconhecidos, enquanto esperavam pela sua vez, contavam uns aos outros as suas dores e ma­leitas. Falavam do tempo, das vessadas, da recolha do pão e do vinho… Falavam de tudo e de nada, e assim ali­viavam as dores que lhes roíam as entranhas.
O altifalante anuncia o meu nome. Arrumo o papel e a caneta, levanto-me e vou…
José de Castro
2020-03-19


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