Diversos

Viajando…

          
Viajando…

Um dia destes, acabei a viajar por dentro da minha terra natal, coisa que há muito não fazia. De mansinho, segui pela estrada da Costa, que serpenteia da Vila a Sanguinhedo. Paragem obri­gatória na capelinha de Santo António, pois a anciã do grupo nunca perde a oportunidade de ofertar a respectiva esmola, quando passa por capela ou alminhas.
Depois, pachorrentamente, desci até ao Mosteiro, seguindo a estrada para Salgueiros. Logo a seguir à Casa Pancada, virei à direita em direcção a Cortegaça. Após pas­sar sobre o ribeiro das Amareiras, a estrada contorce-se monte acima, furando por entre o verde dos carvalhos que, por esta altura primaveril, apresentam um verde viçoso e macio que, aqui e ali, é mesclado pelo branco e amarelo das maias que ornamentam as margens da estrada.


Enquanto o carro ronronava pela subida, no bem tratado piso de alcatrão, eu recuava no tempo e lembrava-me do velho carreiro de cabras que por ali havia, e que os antigos carteiros, de bolsa às costas, palmilhavam diariamente, quer chovesse quer raiasse o sol… cumprindo o giro que lhes estava determinado. Por estas bandas, era o Domingos Costa; por outros giros, lembro-me do Albino do Filipe, do Zeca do Filipe e de outros que já não recordo o nome. Uns já partiram, outros, felizmente, ainda por cá andam, e, não há como negá-lo, são memórias vivas de uma nobre profissão que, fruto da evolução dos tempos, se foi renovando e transformando.
Aos que não são desse tempo, será difícil acreditar que o carteiro palmilhava a pé, quase todos os dias do ano, o seu giro. Neste caso, saindo da Vila, seguia para o Mosteiro, subia a Cortegaça, atravessava pelo monte para Vila Sêca, regressando ao fim do dia à sede dos CTT. Obviamente, embora houvesse mais residentes por estes lugares, talvez o volume de correspondência fosse menor do que é hoje, porque o país era mais parado e fechado. As pessoas menos solicitadas, menos exigentes, a sociedade menos desenvolvida.
O carteiro traz as boas e as más notícias! Hoje, as boas resumem-se ao vale da reforma; as más são as facturas para pagar. Outrora não era assim! O carteiro trazia na mala, essencialmente, cartas. Cartas que traziam notícias que enchiam de luz um lar, ou um coração ansioso; às vezes, cartas que provocavam dor, gritos, lágrimas… Quan­tas vezes o carteiro era ansiosamente esperado! Tantas vezes quase odiado pela ausência de notícias. O namorado que não respondeu; a carta que do capim africano teimava em não chegar, para mitigar as saudades do filho que andava na guerra; a missiva do marido que fugira a salto e que agora labo­ra­va lá por terras de França etc. Aos que não sabiam ler, e eram muitos, o carteiro fazia o favor de ler a missiva, enquanto a ponta do avental ou as costas da mão iam limpando as lágrimas, as quais podiam ser de alegria ou de profunda tristeza. O carteiro era, assim, um amigo e um confidente. Sabia o nome todos, conhecia as alegrias e tristezas de cada um. Hoje o carteiro não traz notícias destas. Aliás, já não se escrevem cartas… Será que as cartas de amor são mesmo ridículas, como diz o poeta? Não! A razão é que hoje tudo está à distância de um click!
Por esta altura, amigo e paciente leitor, sei que já te perdeste na minha viagem. Mas eu digo-te que a viatura já venceu a subida, e, agora, estende-se em frente dos meus olhos, o lugarejo de Cortegaça, onde os seus campos verdes lembram toalhas estendidas ao sol!
Mas ao embrenhar-me pela estrada que rasga o lugarejo, voltei a perder-me pelas minhas memórias. Desta vez, para trazer à baila o Sr. Al­va­rino Alfaiate. Lembrei-me dele, porque tantas vezes pal­milhei de Vila Sêca a Cor­te­gaça, pelo carreiro das Ama­reiras e por entre aqueles cam­pos, até à casa do Sr. Alvarino, acompanhando a minha mãe e a minha avó, que ali iam levar sacos de carvão, o combustível com que se alimentavam os ferros de engomar, utensílio imprescindível a qualquer alfaiate.
O Sr. Alvarino era o alfaiate que me fazia as calças, quando eu era rapaz. Lembro-me dele a tirar-me as medidas. Fita de alfaiate ao pescoço, um bloco de notas para registar as medidas… Ele agachado, eu todo direito à sua frente, feito um homem de palmo e meio… mais tarde, a prova da obra já alinhavada. Ah! Também foi ele que me fez o primeiro fato! Era cor de vinho, e foi com ele que tirei as fotos para o meu primeiro bilhete de identidade, após ficar aprovado no exame da 4.ª classe. Outros tempos…
Tenho boas recordações do Sr. Alvarino, o qual, mais tarde, se mudou com o seu “atelier” para Vilarchão. Já mais crescido, ainda lá fui tirar me­didas para alguns pares de calças, que o Sr. Alvarino fazia na perfeição!
Certamente, amigo leitor, estás de novo perdido no meio da minha viagem. Digo-te, porém, que Cortegaça já ficou para trás, e a próxima paragem é na Senhora da Orada, a pedido, naturalmente, da anciã que me acompanha. Paragem curta, apenas para mais uma dádiva da respectiva esmola. Enquanto espero, aprecio o bem tratado recinto, revejo a velha fonte, on­de tantas vezes saciei a sede quando descia da Cabreira, e rebobino as festas da Senhora da Orada, os ando­res, os anjinhos na procissão… os merendeiros sob a sombra do carvalhal…
De novo a rolar, agora no regresso à aldeia natal, passo em Pinheiro. A igreja, a ponte, a velha escola alcandorada sobre a estrada… a casa do Jai­me d´Asnela, com a sua loja, onde se vendia de tudo… Recordo a sua velha e pachorrenta camioneta, onde a rapaziada se dependurava em andamento, sem que o Sr. Jai­me desse conta. Já há muito que a camioneta não ronrona, e a velha loja tem agora um aspecto cadavérico, fruto do abandono.
Logo depois, a descida íngreme até lá ao fundo, no Sestal.
Perdoa-me, paciente leitor, mas vou perder-me de novo, embalado nas minhas recordações.
Era aqui, ao fundo da ladeira, no Sestal, que laborava o mestre Abel, o meu velho e amigo sapateiro.
Estou a vê-lo naquele cubículo que era a sua oficina. Sentado, de avental, a faca de sapateiro, o fio entre os dedos a sovela sempre em riste. Ainda sinto o cheiro a borracha… ainda o vejo naquela ligeireza a dar os últimos retoques e depois a graxa… as botas ou os sapatos a brilharem como se fossem novos, depois de remendados pelas suas mãos ágeis e habilidosas. Outras vezes, uns tacões novos, meias-solas etc.
O mestre Abel era afável e brincalhão com a rapaziada. Um dia, fui com o meu primo levar uns sapatos do pai dele, para que o mestre Abel os consertasse, nomeadamente aplicasse umas meias-solas, conforme lhe determinara a mãe.
Afoitos, munidos da respectiva roda com o guiador, brinquedo de outros tempos, lá partimos a toda a brida estrada fora, até ao Sestal. Esporadicamente, um carro pas­sava por nós, deixando-nos envoltos numa nuvem de pó, pois a estrada era ainda em terra batida. Estrada cuja manutenção estava a cargo dos cantoneiros camarários. Entre eles veio-me à lembrança, o amigo Joaquim, que morava em Pinheiro, e de quem tantas vezes me lembro. Mas voltemos à nossa corrida.
Chegámos ao atelier do mestre Abel cansados e ofegantes, pelo esforço da corrida.
- Então o que vos traz por cá, meninos? – perguntou o mestre Abel.
De imediato, o meu primo puxa da saca e mostra o par de sapatos do pai, dizendo de seguida:
- A minha mãe pede para o Sr. Abel lhe pôr solas e meias nestes sapatos do meu pai!
Com aquele rosto bona­cheirão e afável, o mestre Abel percebendo o engano do meu primo, diz com ar muito sério:
- Ó diabo… temos um pequeno problema! Eu solas ainda ponho, mas meias não tenho. Diz à tua mãe que tem de as comprar na feira, na próxima segunda-feira, em Vieira, está bem?
Sem percebermos a brincadeira, dissemos ambos em uníssono, com a maior da nossa inocência:
- Nós dizemos-lhe, Sr. Abel!
- Então, para a semana, estão prontos, mas só com as solas – disse, sorrindo o mestre Abel, já com a sovela apontada a umas botas que arranjava.
Partimos de imediato a toda a velocidade de regresso a casa, agora a descer era mais fácil, contentes e alegres por termos cumprido na íntegra a nossa missão, e incumbidos de informar a mãe do meu primo do recado do mestre Abel!
Escusado será dizer, que foi uma risada, quando voltámos ao Sestal, para buscar os sapatos já prontos com as meias-solas. Mas na memória perdura esta imagem do bom e brincalhão mestre Abel, figura grada das gentes de Pinheiro, assim como o Joaquim!
Amigo leitor, em breve a minha viagem termina, pois já vislumbro a penedia do Crasto e as primeiras casas do meu torrão natal, Vila Sêca, já se mostram.
A viagem foi curta no espaço, mas longa no tempo. Deambulei por profissões que se vão perdendo ou alterando, fruto da evolução da sociedade. As pessoas de quem te falei são reais. Uns já nos deixaram, mas outros, felizmente, ainda se cruzam connosco. Através deles, quis prestar a minha homenagem a todos os carteiros, alfaiates, sapateiros e cantoneiros… aos de ontem e aos de hoje!
Os lugares por onde passei, reavivaram os meus socalcos da memória. Foram sítios e gentes que me ajudaram a crescer e moldaram a pessoa que hoje sou. Acredito que também tu, tens lugares e gentes que te despertam memórias. Quem sabe, um dia, ganhas coragem e vens contar-nos as tuas simples, mas profícuas viagens. Fico à tua espera…
José de Castro
2020-05-14


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