Editorial

Direção Espiritual

Será hoje importante a direção espiritual na formação (caminho de emancipação ou maturidade) de todos os homens e do homem todo?
Sem o desporto, a ginás­ti­ca, não teríamos atletas, pessoas robustas e saudáveis. Mas temos outra di­men­são, a espiritual, que no geral não nos merece igual cuidado.
O produto final do desenvolvimento integral do homem, é o “santo”. Não me refiro à pessoa que, após reconhecimento público da prática heroica das virtudes, merece a veneração. “Santos e irrepreensíveis”, devem ser todos os bati­za­dos, segundo a Sagrada Escritura.
Quando nos dói a cabeça, ou outra parte do corpo, marcamos consulta, pro­curamos um médico, apresentamos os mo­ti­vos da nossa preocupação e ele receita o tratamento ou aná­lises que permitam um diagnóstico mais seguro.
Por que razão não temos igual cuidado com a alma, ou espírito, como quisermos chamar, ao que em nós não é material?


Ando pela igreja ou sou Igreja?

A superficialidade há muito se instalou na nossa ma­nei­ra de ser e proceder.
Julgamos e avaliamos pe­lo que observamos sem o cuidado de nos determos no “porquê e para quê”. Con­­formamo-nos, se isso nos evita qualquer choque ou problema com os outros. Esta passividade empobrece-nos espiritualmente e atrofia a capacidade de sermos comunidade.
Porque faço isto e não aquilo? – É uma boa per­gun­ta a levar a exame de cons­ciência.
Vamos entrar num Ano Mis­sionário, que nos pode con­vi­dar ao aprofundar sério da nossa situação atual. “Ando pela igreja, porque até vou à missa ao domingo, vou lá rezar o terço no mês de Maria, das Almas ou de S. José, confesso-me uma vez por ano…”! Penso que ter este preceituário em dia vale o certificado de “bom cristão”?


Em louvor do sacerdócio

No mês de Agosto, depois das festas populares dos meses maiores, de feriados municipais e nacionais, mul­ti­plicam-se as festividades re­­ligiosas e as celebrações ju­bilares. Ordenações sa­cer­­­­dotais, missas novas, bo­das de prata e de ouro, ca­sa­­mentos, batiza­dos, num país ainda tradicionalmente católico, repetem-se ciclica­mente.
A Igreja está em festa. Movimenta “mundos e fundos” em aliança com o poder po­lí­tico e “em louvor do sacer­dó­cio”, numa dinámi­ca, nem sempre evangeli­za­dora e por vezes próxima dos modelos empresariais, à procura de êxito, excelência e pro­ta­gonis­mo.
Ora o sacerdócio não é o iní­cio duma carreira ecle­siás­tica na procura de pontos de curriculum para a re­ce­pção de títulos, dignidades ou benefícios.
Se fazemos da fé uma dança em volta de nós próprios, a Igreja torna-se uma empresa, a evangelização uma técnica e o sacerdócio uma pedra de xadrez desenhado num qualquer quartel-general de religião. Visto co­mo “carreirismo”, o sacer­dó­cio é a degradação total da missão da Igreja, porque a sua primordial vocação é “re­zar e ensinar o povo a re­zar” (Paulo VI).


Pés na terra

Com os pés bem assentes na terra, porque esta “só se conhece bem com os pés”, segundo uma bela metáfora que Miguel Torga usou para descrever o comportamento de alguns personagens do seu tempo, em tempo de fé­rias, também ousamos reflectir as realidades do nosso tempo com o poeta, médico e escritor.
Pensamos no tempo gasto com horas e dias dedicados à programação de eventos, festas, programas pastorais, e outros mais, que entretêm e justificam tantos orçamentos e empreendimentos, elaborados com as melhores in­ten­ções de serviço público ou religioso.
Podemos hoje continuar a cair na tentação de uma práti­ca de grandes eventos, grandes iniciativas, com muitos con­vidados, muita gente em festa e movimento, deixando a ideia de plenitude e felicidade com que sonhamos; mas talvez ao lado fique todo um outro mundo de “tristezas e angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e dos que mais sofrem” (Gaudium et Spes,1) que pas­sa à margem da agenda diária, dos alinhamentos das no­tícias, dos debates e preocupações, e que recusamos reconhecer.


O cansaço e a solidão do Pastor

Ser padre, hoje, não é missão fácil, e pode tornar-se, a curto prazo, numa vida marcada pela solidão, o iso­lamento, o desânimo e abandono.
A desertificação paroquial, as igrejas vazias, a ausência de fiéis nas celebrações, a diminuição das crianças na catequese, o abandono dos jovens, o envelhecimento dos sa­cerdotes, a escassez de vocações, entre outros factores, criam condições para o isolamento dos presbíteros.
O presbítero está segregado do mundo, mas “não está se­­parado do Povo de Deus, porque foi constituído em favor dos homens” (Hebr 5,1), consagrado totalmente ao serviço da caridade e à missão a que o Senhor o chamou.


“Dar o melhor de si”

A Santa Sé publicou a um de Junho, duas semanas antes do início do Campeonato do Mundo de Futebol, na Rússia, um documento sobre o desporto que, não apenas os desportistas mas todos os dirigentes, deveriam ler.
“Dar o melhor de si”, é um documento sobre a perspetiva cristã do desporto e da pessoa humana, com a assinatura do Dicastério para os Leigos, a Família e a Vida, e duma actualidade flagrante também na sociedade portuguesa.
Corremos um sério risco de identificar o desporto com o fu­tebol, confundindo com ele toda a modalidade desportiva, dada a amplitude comercial do mesmo e do tempo de antena gasto em horas a fio com programas e jogos de futebol, onde se alimentam tensões, discussões e as maiores reacções agressivas.


Escutar os jovens

“Se eles se calarem, gritarão as pedras” (Lc 19,40)

Há 50 anos, Maio/68 em Paris, as manifestações estudantis colocaram a França às portas duma nova “Revolução Francesa”. Durante 55 dias a rua “tomou o poder” em Paris com palavras de ordem como: “a imaginação ao poder”, “é proibido proibir”, “fechem a televisão e abram os olhos”, “a beleza está na rua” ou “façam amor, não façam a guerra”. E o ressurgimento dos jovens, como nova força política alastrou por várias cidades do mundo, até à Primavera de Praga onde a 20 de Agosto os tanques soviéticos puseram fim a sete meses de escalada democrática.
Cinquenta anos depois, face a quantos gostariam de continuar hoje a “manter os jovens “à distância de segurança” para não se sentirem provocados” por eles, a Igreja vai ouvir os jovens numa Assembleia Sinodal que decorrerá em Roma de 3 a 28 de Outubro de 2018.
O “Documento Preparatório” da XV Assembleia Geral Ordinária dos Bispos, que tem por tema “Os jovens, a fé e o discernimento vocacional”, sublinha amplamente a necessidade da Igreja “escutar os jovens”, crentes e não crentes, uma vez que também através deles ela “poderá ouvir a voz do Senhor que ressoa, inclusive, nos dias de hoje”.


As falsas notícias

Na mensagem para o 52º Dia Mundial das Comunicações Socais, o Papa Francisco alerta para o tema das fake news, as notícias falsas, e propõe um jornalismo de paz, ”sem fingimento, hostil às falsidades, a slogans sensacionais e a declarações bombásticas” que assuma as causas dos que “não têm voz”; um jornalismo que não se limite “a queimar notícias” mas seja “guardião das notícias”, propondo “soluções alternativas à escala do clamor e da violência verbal”.
No preâmbulo da mensagem fica claro o seu grande objectivo: “contribuir para o esforço comum de prevenir a difusão das notícias falsas, que remetem para notícias infundadas, baseadas em factos inexistentes ou distorcidos, para enganar ou manipular o destinatário, usando notícias verdadeiras com fins políticos, económicos, sociais, ideológicos ou mesmo religiosos, que as falsas notícias também podem coexistir com a verdade nos media católicos.


Catolicismo de manutenção

Ao longo da Quaresma temos assistindo, com alguma frequência, ao aparecimento de novos areópagos da comunicação, onde as “conferências quaresmais” foram substituídas pelas “Novas Ágoras” com “novos olhares” e novos Ciclos de Estudos sobre “crenças religiosas mudanças culturais” servidos em novas plataformas de diálogo, com novos paradigmas, novos modelos culturais e novos temas de reflexão.
“É urgente uma transformação cultural. Uma mudança sustentável que parta do diálogo, da diversidade de pensamento”, sustentava D. Jorge Ortiga, na abertura do novo ciclo da Nova Ágora “Olhares sobre a Ecologia”.
A nova evangelização tem hoje novos pregadores, na sua maioria não-crentes e agnósticos, e novos auditórios, e é substituída por novos temas: ecologia, cidadania, economia, filosofia, democracia...


Ressuscitou!
Somos testemunhas

Esta é a notícia do dia de Páscoa, da festa da Nova Criação, a Nova Páscoa: a pedra retirada, o sepulcro vazio, as ligaduras no chão, o sudário dobrado à parte; a fé nascente das primeiras testemunhas a proclamar: Cristo Ressuscitou! Aleluia!
Canta a Igreja em festa. Exultemos e cantemos de Alegria!
A Páscoa é a meta e ponto de partida. Cristo ressuscitado abre-nos as portas da ressurreição e nós somos testemunhas desses factos.
Os acontecimentos pascais que tiveram lugar em Jerusalém por volta dos anos trinta, não são uma história inventada. “É um acontecimento real, histórico, confirmado por muitas e respeitáveis testemunhas” (Bento XVI). Cristo morreu realmente, em Jerusalém, e os seus discípulos, impressionados com a sua morte fugiram ou barricaram-se atrás de portas trancadas. Só o encontro com Cristo ressuscitado devolveu aos apóstolos a Fé e a certeza de que Ele é o Senhor da vida e da morte. A experiência dos novos encontros com Cristo faz dos apóstolos testemunhas da ressurreição. “Vós sois as testemunhas”.