Editorial

DEUS... PEQUENO E POBRE

O mundo proclama felizes os ricos e senhores deste mundo, e os que podem ter e fazer tudo o que querem. Deus proclama bem-aventurados
os pobres e os humildes! Há algo que não bate certo nestas posições,
pois elas afirmam o oposto. Onde está, então, a felicidade e a verdade?


Só com fome serei capaz de saciar pobres

(Meditação para o Advento)

Sentada no conforto que me oferece um aquecime­nto central, ou uma boa lareira, posso pensar nos pobres e idealizar projetos humanitários, dando resposta a muitas carências dos que procuram ajuda; posso sair baten­do à porta de associações, que a troco de alguma publici­dade, nos oferecem a sua “generosidade”; promover even­tos di­tos solidários, como ceias e caminhadas para con­­­vívio e confraternização, dedicando uma pe­que­na fa­tia do investimento para alguma instituição socio-carita­ti­va…tanta coisa se pode gostosamente idealizar, execu­tar e retirar proveito!
Seguem-se os elogios, aqueles louvores precon­cei­tuo­sos da “boa pessoa”, da aparente bondade du­ma alma ge­­nerosa a quem outrora se tiraria o chapéu, a modo de vas­salagem.


Os Pobres Involuntários

Por proposta do Papa Fran­­­cisco, celebraremos no dia 18 de Novembro o II Dia Mundial dos Pobres.
De que pobres se trata? Da­­queles que não escolheram viver com a carência de bens de primeira necessi­da­de, que se sentem excluí­dos, re­jeitados ou marginali­za­dos.
Para compreendermos a si­­tuação dos que sofrem a po­breza, teríamos de fazer a ex­periência de a viver. Cer­ta­­mente alguns a fizeram dum ou outro modo, total ou par­­cial­mente, imposta por cir­­cuns­tâncias estranhas como guerras ou catástrofes, ou abraçada para possibilitar uma aproximação.
“Não amemos com palavras mas com obras”, reco­men­da-nos o Papa na men­sa­gem para o 2º Dia Mundial da Pobreza. Não precisamos de fazer a experiência material da pobreza. Basta exercitarmos a nossa capacidade de escuta, de reflexão, de observação discreta, silenciosa, das lágrimas es­condidas e vertidas para o interior de corpos doridos. Quantos já nem choram, por não en­xer­garem uma gota de es­pe­rança. Tudo secou!
Pobres de muitos bens, não só de bens materiais, por­­que novas espécies de po­breza nos indiciam outras misérias que comprometem a dignidade e retiram a li­ber­dade.


Eu santo?

“Sede santos porque Eu sou santo” (Lev. 11,45)

Pensando hoje no conceito de santidade, apesar do ele­vado número de santos que têm subido ao altar nos úl­timos anos, a primeira imagem que nos vem à cabeça é a de uma certa aversão à santidade. Eu santo? “Não sou nenhum santinho”, _ dizemos e ouvimos muitas vezes, mesmo entre cristãos, com certo medo, fomentado pela falsa humildade de assumir que o nosso maior dese­jo é sermos santos. Se identificarmos o conceito de santi­dade com o de felicidade, quem não quer ser feliz ou santo?
Mas no nosso imaginário cristão feito das leituras, da ar­te, das imagens que nos passaram na infância, da ca­te­­quese, das homilias que ouvimos ao longo dos anos, a santidade está reservada a alguns bispos, padres, reli­gio­sos ou pessoas que passam muito tempo a rezar…


Direção Espiritual

Será hoje importante a direção espiritual na formação (caminho de emancipação ou maturidade) de todos os homens e do homem todo?
Sem o desporto, a ginás­ti­ca, não teríamos atletas, pessoas robustas e saudáveis. Mas temos outra di­men­são, a espiritual, que no geral não nos merece igual cuidado.
O produto final do desenvolvimento integral do homem, é o “santo”. Não me refiro à pessoa que, após reconhecimento público da prática heroica das virtudes, merece a veneração. “Santos e irrepreensíveis”, devem ser todos os bati­za­dos, segundo a Sagrada Escritura.
Quando nos dói a cabeça, ou outra parte do corpo, marcamos consulta, pro­curamos um médico, apresentamos os mo­ti­vos da nossa preocupação e ele receita o tratamento ou aná­lises que permitam um diagnóstico mais seguro.
Por que razão não temos igual cuidado com a alma, ou espírito, como quisermos chamar, ao que em nós não é material?


Ando pela igreja ou sou Igreja?

A superficialidade há muito se instalou na nossa ma­nei­ra de ser e proceder.
Julgamos e avaliamos pe­lo que observamos sem o cuidado de nos determos no “porquê e para quê”. Con­­formamo-nos, se isso nos evita qualquer choque ou problema com os outros. Esta passividade empobrece-nos espiritualmente e atrofia a capacidade de sermos comunidade.
Porque faço isto e não aquilo? – É uma boa per­gun­ta a levar a exame de cons­ciência.
Vamos entrar num Ano Mis­sionário, que nos pode con­vi­dar ao aprofundar sério da nossa situação atual. “Ando pela igreja, porque até vou à missa ao domingo, vou lá rezar o terço no mês de Maria, das Almas ou de S. José, confesso-me uma vez por ano…”! Penso que ter este preceituário em dia vale o certificado de “bom cristão”?


Em louvor do sacerdócio

No mês de Agosto, depois das festas populares dos meses maiores, de feriados municipais e nacionais, mul­ti­plicam-se as festividades re­­ligiosas e as celebrações ju­bilares. Ordenações sa­cer­­­­dotais, missas novas, bo­das de prata e de ouro, ca­sa­­mentos, batiza­dos, num país ainda tradicionalmente católico, repetem-se ciclica­mente.
A Igreja está em festa. Movimenta “mundos e fundos” em aliança com o poder po­lí­tico e “em louvor do sacer­dó­cio”, numa dinámi­ca, nem sempre evangeli­za­dora e por vezes próxima dos modelos empresariais, à procura de êxito, excelência e pro­ta­gonis­mo.
Ora o sacerdócio não é o iní­cio duma carreira ecle­siás­tica na procura de pontos de curriculum para a re­ce­pção de títulos, dignidades ou benefícios.
Se fazemos da fé uma dança em volta de nós próprios, a Igreja torna-se uma empresa, a evangelização uma técnica e o sacerdócio uma pedra de xadrez desenhado num qualquer quartel-general de religião. Visto co­mo “carreirismo”, o sacer­dó­cio é a degradação total da missão da Igreja, porque a sua primordial vocação é “re­zar e ensinar o povo a re­zar” (Paulo VI).


Pés na terra

Com os pés bem assentes na terra, porque esta “só se conhece bem com os pés”, segundo uma bela metáfora que Miguel Torga usou para descrever o comportamento de alguns personagens do seu tempo, em tempo de fé­rias, também ousamos reflectir as realidades do nosso tempo com o poeta, médico e escritor.
Pensamos no tempo gasto com horas e dias dedicados à programação de eventos, festas, programas pastorais, e outros mais, que entretêm e justificam tantos orçamentos e empreendimentos, elaborados com as melhores in­ten­ções de serviço público ou religioso.
Podemos hoje continuar a cair na tentação de uma práti­ca de grandes eventos, grandes iniciativas, com muitos con­vidados, muita gente em festa e movimento, deixando a ideia de plenitude e felicidade com que sonhamos; mas talvez ao lado fique todo um outro mundo de “tristezas e angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e dos que mais sofrem” (Gaudium et Spes,1) que pas­sa à margem da agenda diária, dos alinhamentos das no­tícias, dos debates e preocupações, e que recusamos reconhecer.


O cansaço e a solidão do Pastor

Ser padre, hoje, não é missão fácil, e pode tornar-se, a curto prazo, numa vida marcada pela solidão, o iso­lamento, o desânimo e abandono.
A desertificação paroquial, as igrejas vazias, a ausência de fiéis nas celebrações, a diminuição das crianças na catequese, o abandono dos jovens, o envelhecimento dos sa­cerdotes, a escassez de vocações, entre outros factores, criam condições para o isolamento dos presbíteros.
O presbítero está segregado do mundo, mas “não está se­­parado do Povo de Deus, porque foi constituído em favor dos homens” (Hebr 5,1), consagrado totalmente ao serviço da caridade e à missão a que o Senhor o chamou.


“Dar o melhor de si”

A Santa Sé publicou a um de Junho, duas semanas antes do início do Campeonato do Mundo de Futebol, na Rússia, um documento sobre o desporto que, não apenas os desportistas mas todos os dirigentes, deveriam ler.
“Dar o melhor de si”, é um documento sobre a perspetiva cristã do desporto e da pessoa humana, com a assinatura do Dicastério para os Leigos, a Família e a Vida, e duma actualidade flagrante também na sociedade portuguesa.
Corremos um sério risco de identificar o desporto com o fu­tebol, confundindo com ele toda a modalidade desportiva, dada a amplitude comercial do mesmo e do tempo de antena gasto em horas a fio com programas e jogos de futebol, onde se alimentam tensões, discussões e as maiores reacções agressivas.