Opinião

O sofisticado charme do telemóvel-mania

Protocolo de uma aventura juvenil realística ocasional dentro de um compartimento de comboio entre Bra­ga e Porto, durante uma hora carregada de um evento digital: há um completo silêncio à nossa volta. Rodri­go, um rapaz fora de série, lê com devoção um ardente livro. Cinco outros, Stella, Irmi, Silvi, Gabriel e Eduardo, partilham a mesma carruagem, sentados em frente a nós, vão fazer uma visita de estudo ao famoso Zoo de Santo Inácio em Gaia. Nenhuma conversa entre eles, nenhuma palavra entre os seis, nem um olhar en­tre si. Os cinco, crianças da sé­rie moderna, estão con­centrados de forma imaginativa nos seus ilustres i-pho­nes e tablets, todos do último grito técnico e colorido da moda. Para nós, da ge­ra­ção do século 20, a si­tua­ção parece um pouco estranha, uma combinação entre impulsos surrealistas de um demorado cortejo fúnebre e uma curiosa e enfadonha atmosfera dum filme silencioso do século 19. Uma aura es­quisita, perturbada e ina­cre­ditável, mas autêntica no ano 2018: jovens, de facto ainda crianças, sentadas juntas num compartimento de comboio, sem dizer uma única palavra, durante quilómetros de viagem, de apea­deiro em apeadeiro! Um verdadeiro trauma para nós dois, para a minha companheira e para mim.



BICADAS DO MEU APARO

Imagine-se que...

A Comunicação Social informou os portugueses de que o nosso país é o décimo mais democrático do mundo. Fiquei contente e, de certo modo, pensativo. Analisando o fei­­to nacional, como somos e como vivemos em comunidade, concluí que, a nossa democracia nada tem a ver com a de­mocracia Leninista que Álvaro Cunhal e o seu PCP advo­ga­vam em 1975, bem como as democracias de Mao Tsé-Tung ou de Kim Jong-un da Coreia do Norte ou até mesmo a de Putin, actualmente, na Rússia.
Na verdade, a sã democracia é representativa, todos cabem nela, a todos se escuta e com todos se cresce: procurando a autonomia da sociedade civil, a primazia dos direitos humanos, o Estado de direito, a livre circulação de pessoas e bens, e a opinião de quem quer que seja, etc. Esta de­­mo­cracia, a dos países livres, deve ter fiscalização cons­tante e nunca se apresentará ao povo como canas agitadas pelo vento, isto é, por aventureiros da causa pública, que poderão fomentar os lucros de ocasião, o jogo escondido de meliantes, pois, a acontecer assim, além de democracia perigosa surgiriam os cidadãos de estômagos vazios.


BICADAS DO MEU APARO

ATAQUES AO POVO

Não há palavras à altura para se aplicar o nome certo aos políticos que governaram e governam Portugal, nesta última década. É vergonhoso e imoral que, quem vota nesta gente para ser representado, os governantes vejam as pessoas como incultas ou acarneiradas.
Portugal é um país admirado e desejado por muita gente de fora que gosta deste cantinho e que nunca tem pressa de ir embora. Todavia, temos muita ordinarice entre o povo: cor­rup­tos, oportunistas sem vergonha, sem civismo e predadores actuando em qualquer espaço. Mas, sempre delicados e sorridentes.
O Parlamento Português é a Casa de todos os esquemas programados, onde juristas, deputados pelo povo eleitos, trabalham sem cansaço e sem sono, em todos os terrenos que possam favorecer-se em primeiro lugar, depois familiares próximos e por fim a clientela, ou os grupos herméticos a que pertencem. Aprovam as leis regulamentares de todos es­ses esquemas a qualquer hora ou dia do ano e, quem vive atento, chega sempre à mesma conclusão: fazem de nós estúpidos, carneirada.
Nos Bancos, injecta-se o dinheiro do povo e, tais injecções deviam ser repostas nos cofres do Estado a tempo e ho­ras. Mas não: distribuem prémios aos bancários com di­nhei­ro que não nasceu na Banca. A Banca tem os amigos das chefias e os amigos na política. Desse modo fazem-se em­préstimos de baixos spreads e financiamentos aos com­par­sas, como as daquele primeiro-ministro que de repente foi senhor de mais de trinta milhões de euros sem que ninguém entendesse porquê.


A lenda da figueira da torre

Ter-se-á perdido no tempo, como tantas outras, mas da memória coletiva profunda, quando estimulada, ficam sempre reminiscências soltas que podem emergir à superfície. Os mais velhos têm na recordação a sua maior força, fazendo com que, muitas vezes, na imaginação popular sejam vistos como profetas, animados pelo espírito divino. Estas palavras vêm a propósito da crónica que escrevi em janeiro de 2017 que terminava assim: Apesar da desolação, a Natureza é caprichosa e cheia de mistérios e, por isso, tenho a esperança de que a resiliente “figueira” volte a renascer!”. Na altura o assunto despertou memórias na comunidade que foram partilhadas, relembrando, muitas delas, as histórias contadas pelos mais velhos nas longas e frias noites de Ceia de Natal, sob o calor do borralho. Narrativas que os mais velhos tinham ouvido dos seus avós que, por sua vez, tinham também ouvido dos seus e assim sucessivamente. Entretanto o “milagre” voltou a acontecer (ver imagem). Por estes dias, a figueira da torre voltou a “rebentar” entre as fendas graníticas do campanário da igreja paroquial. Com razão o povo dirá que “a Deus nada é impossível”! Eu apenas direi que…a lenda continua!


A nossa dualidade legislativa

Conheço uma unidade de restauração familiar, com ele­vado sucesso e reconhe­ci­­mento internacional, sendo alvo de sucessivos prémios pela qualidade e criatividade da cozinha que ali é praticada. Começou por ser uma pe­quena taberna onde a res­pon­sável pela cozinha sempre procurou utilizar produtos naturais produzidos na regi­ão, surpreendendo pela qua­lidade da ementa dispo­ni­bi­li­zada aos seus consumidores –“verdadeira cozinha medi­ter­rânica”. Tornou-se mo­tivo de conversa entre aqueles que gostam de saborear co­mi­da de qualidade, sustentada em métodos de confecção que repõem sabores e tex­turas an­cestrais, que as novas prá­ti­cas de preparação, uma cozinha mais sofisticada, fizera desaparecer.


Temos o dever de desconfiar

Nunca falei na vida com Joana Marques Vidal. Nunca tinha ouvido falar de Lucília Gago até à sua nomeação. Nada tenho de pessoal a favor de uma ou a desfavor de outra. Mas, como cidadão, tenho tudo para estar desconfiado. Para desconfiar das razões de Marcelo Rebelo de Sou­sa. Para desconfiar ainda mais das razões de António Costa. Só um cego não vê que há um Ministério Público antes de Joana Marques Vidal e outro depois de Joana Marques Vidal, onde antes se arquivava, agora dava-se mais tempo para investigar. Onde antes se recuava quando se chegava à porta dos poderosos e agora arrombava-se essa porta. Antes parecia haver medo, agora havia sinais de determinação. Todos os portugueses viram, ouviram e leram. Por isso temos o direito de desconfiar. Mais, temos o dever de desconfiar. O Ministério Público in­co­modou o PS, quando não teve medo de Sócrates e sabemos que muitos no PS e no Governo não lhe perdoam. Essa vontade de fazer justiça. Mas o Ministério Público também entrou no círculo íntimo de Marcelo Rebelo de Sousa quando não ficou à porta do to­do-poderoso Ricardo Salgado. O Ministério Público não cedeu à pressão dos políticos quando não deixou cair investigações que envolviam políticos angolanos, o “irritante que Costa e Marcelo tudo fizeram para apagar”. Por fim o Ministério Público assusta todos os políticos, quando entra portas adentro do maior clube português, pois essa é a tempestade que ninguém deseja em ano de eleitoral.


O povo sorri

BICADAS DO MEU APARO

No Estado Novo, quando se dava aumentos aos funcionários, eram, normalmente, vinte escudos mensais. Com a nota de vinte, almoçava-se, ia-se ao cinema, lanchava-se e ainda sobravam uns trocos para comprar um pirolito. Hoje, os 10 cêntimos (vinte escudos), não chegam para comprar um pão. Ora a minha ex-colega Gertrudes, dizia-me ontem que lhe comunicaram um aumento de dois euros – quatrocentos escudos - que dão para comer uma sopa e um pão, uma só vez no mês.
Sendo assim, verifica-se que este Governo de “progressis­tas e patriotas”, chama aos dois euros dados, aumento. Não lhe chama reposição na reforma. Sócrates cortou milhares e milhares ilegalmente nas pensões dos reformados; Passos Coelho cortou ilegalmente, milhões de euros aos pensionistas do Estado enquanto governou. No final do mandato, anunciava que, lentamente, tudo se iria repor, uma vez que os cofres já estavam cheios. Costa repõe migalhas, não aumenta, e os que recebem mais do que a minha amiga Gertru­des, continuam a ser sacados de cem a seiscentos eu­ros men­sais, situação que Costa não resolve. E o povo sa­be dis­to, mas o povo sorri!


No limiar de novo Ano Pastoral

Li recentemente uma reflexão que me sugeriu outra, so­bre o modo como vagueamos por aí. Despreocupados, indiferentes, ao sabor das marés, de ventos favoráveis ou contestatários, de modas…sempre atrás da “última no­vi­dade”, daquela que, finalmente me vai tornar célebre.
O que nos move e transparece exteriormente, é muito se­melhante ao que nos motiva “por dentro”.
Quando há dias li: “O apostolado dos cristãos é, hoje co­mo sempre, uma superabundância da nossa vida interior”, pensei no Programa Pastoral, que já tive oportunidade de ler.
Sob o mote: «Sede alegres na esperança» (Rom 12,12), da­remos testemunho da fé que professamos, num espírito de alegre missão, porque este é também um ano missio­nário.


Cortiça do biotopo Alentejo

Se o mundo inteiro falar de cortiça, fala-se de Portu­gal e de um dos seus produtos mais famosos: cor­tiça. O sobreiro fornece o material para uma se­lecção de acessórios na vida industrial e familiar. Figura em primeiro lugar com a produção de 70% de rolhas, depois o fabrico de tapetes, bolsas, carteiras, solas de sapatos, etc. A cortiça combina factores importantes, é um produ­to leve, isolado, eléctrica e acusticamente. A técnica astro­náu­tica profundamente favorita destas vantagens originais e úteis. A cortiça gira permanentemente nos satélites à volta da terra.
Portugal produz metade da cortiça do mercado mundial. De entre os países mediterrânicos que exploram a cortiça, o nosso país aparece na frente em competição directa com a Espanha e Itália. Numa área de 750.000 hectares no bió­to­­po Alentejo os sobreiros apresentam-se sempre verdes, ainda que seja no extremo calor do verão com temperaturas superiores a 40 graus, no entanto não gostam de in­ver­nos frios, produzem também nos seus famosos “montados” uma matéria-prima de elevada categoria industrial. No Alentejo florido existe um centro ecológico em solidariedade com a natureza rica, assim como com a inspiração hu­ma­­­na e técnica. Os montados produzem por ano cerca de 14 milhões de dióxido de carbono, capacidade suficiente que permite neutralizar e filtrar o monóxido de carbono cor­res­­pondente a 3 milhões de autocarros. Para crescer har­mo­­niosamente, entre 500 até 700 milímetros de chuva por ano chegam. A árvore vive de forma modesta, resguardando a riqueza alimentar da terra, especialmente quando ela não é calcária.