Opinião

Em exame

“Uma vida sem exame diário não vale a pena de ser vivida”
- Sócrates, filósofo grego

Uma vida tem a marca de missão e profecia.
Quem se nega a vivê-la está a atraiçoar a civilização e a cultura; quem a vive a meio termo, não dá de si o que tem em si; quem a vive a tempo inteiro com tudo o que ela é, as­sume-se como alguém responsável, adulto, ainda que nos dias de hoje para se viver de bem com todos, se tenha de pertencer a um clube odioso e patético: o Clube dos NIM – nem Não nem Sim.
Os meus pais ensinaram-nos vivendo; à noitinha faziam-se as contas do dia, com prémios e castigos. Não conheço nada de mais pedagógico: pedir contas aos filhos do que fi­zeram de dia, como gastaram o tempo?!


Caixa Geral dos Despojos

Quem se lembra da publicidade te­­levisiva à Caixa Geral de Depósitos (CGD) com o antigo selecio­nador na­cional de futebol, Luiz Fe­li­pe Scolari? Jogando com as diferenças das palavras entre Portugal e o Brasil, rema­ta­va: “Banco é fácil! Banco? Banco é Caixa!” Uma corja ne­potista de banqueiros, polí­ticos, empresários e investi­do­res pouco idóneos te­rá levado isto tão a sério que fa­cil(mente) (en)­Cai­xa­(ram) uns quantos milhões que agora os contribuintes lorpas - é assim que eles nos veem - estão e con­ti­nuarão a pagar com língua de palmo. Hoje, Portugal sabe que num tempo de crise financeira e um país endi­vi­dado, e um Banco de Por­tu­gal, o super­vi­sor, “a comer do sono”, a CGD também entrou nos festins milionários da Banca. En­quanto os portugueses andavam - e continuam a andar - entretidos com futebóis e programas de voyeurismo e lixo televisivo, uns quantos chi­cos-espertos, impecavelmente vestidos e barbeados, oportunistas perfumados com “cha­néis” e outros que­jandos, num círculo suspeito de troca de favores, iam espoliando uma CGD e uma po­bre pátria de um povo continuamente distraído e resi­gna­­do. Hoje sabemos que a súcia elitista e privilegiada de “gente sábia”, condecorada e me­diática, que manda no nosso país, banqueteou-se a seu belo prazer e saiu sem pagar a conta. Recentemente, um ex-presidente do Banco de Inglaterra dizia que “os bancos tornaram-se demasiado grandes para falir, demasiado grandes para gerir e demasiado grandes para [os banqueiros] serem presos”. Crime sem castigo? É o que está a acontecer em Portugal. Os grandes caloteiros, criminosos ou não, andam im­punes e continuam com uma vida faustosa de grande estilo. Gozam, eu assim me sinto, autenticamente com um país que foi obrigado a tapar os buracos dos rou­­bos e com uma Justiça en­­ferrujada, incapaz e parali­sa­da. Quem acredita num país ou numa democracia assim?


BICADAS DO MEU APARO

Perderam a vergonha

Tenho leitores assíduos das minhas crónicas, que, encontrando-nos, oiço os seus comentários, trocamos im­pressões etc. e, muitos, afirmam: dizes verdades, mas pen­so que o que dizes, bem como tantos outros que expõem as su­as opiniões, “com esta manada que nos governa, é escrever no mo­­lhado”. Normalmente, como resposta, recorro ao ve­lho di­­tado de que “água mole em pedra dura, tanto bate que fura”.
Assim, caríssimos leitores do Jornal de Vieira, sendo eu um dos mais antigos colaboradores deste Jornal em que me te­nho dedicado às crónicas, uma máxima me dá alento, fazendo dos meus punhos como que aço que não dobra, embora possa partir. Li há anos um escrito do brasileiro Millôr Fernandes, que afirmava: “Se você agir e escrever com digni­da­­de, pode não melhorar o mundo, mas uma coisa é certa: ha­verá na Terra um canalha a menos”.


BICADAS DO MEU APARO

A Cambada

Nas primeiras semanas do ano passado, abordei neste espaço as bicadas que a instituição da ADSE - servi­ços de saúde aos funcionários do Estado, no activo e na apo­sen­tação – já sofria, porque uns políticos de meia-tigela, pa­ra mostrarem serviço ao Partido, ou à disciplina ideológica, agi­tavam-se como ratos nos esgotos. Não chamavam aos ser­vidores do Estado, privilegiados, mas, analisados os co­men­tários e a hipocrisia sub-reptícia empregue no problema ADSE, no mínimo, a não os mover mais nada, movia-os a in­veja de não poderem servir-se nesses serviços de saúde.
O grande problema, é que a instituição ADSE, ganhou, des­­de o vinte e cinco do quatro, um enorme defeito: foi um ser­­viço para os funcionários públicos criado em 1963, pelo fas­cismo. Não diz isso a súcia que tem governado nesta III (ou IV?) República. Não convém, pois, esta instituição foi e é de­masiado importante e altamente bem pensada e muito me­lhor, organizada. Pelos frutos, como diz o povo, se conhe­ce a árvore.


Risco de ser padre, hoje

Há um século, ainda era considerado graça para uns ou hon­ra, para outros, ter um familiar sacerdote, na família. Era respeitada a vocação sacerdotal e admirada a opção do celibato.
O que mudou, para predominar uma opinião pública dife­ren­­­­te? Recordando os últimos ataques aos valores que a Igre­­ja defende e sobretudo refletindo como, de repente, se ca­­­laram vozes agressivas que na comunicação social, sen­ten­­ciaram desfechos que não se verificaram, são horas de ca­da um “investigar” as causas.
O Papa Francisco promoveu a reflexão e o debate que as circunstâncias impunham. Os erros e crimes não eram ex­­clusividade da Igreja, mas duma sociedade que tem vindo a destruir valores. A luta contra o erro não deve ser trava­da só na Igreja, e por ela, mas por todos os homens e mulhe­res que se empenhem em construir um mundo, física e espi­ri­­­tualmente saudável.


Vórtice de bichos desastrosos em ambiente da flora

Quatro tipos de insetos e escaravelhos dançam o ritual do ventre na flora de Portugal. Envergados nos seus vestidos garridos e multicolores, mas de uma capacidade devastadora e de um perigo ruinoso revelam-se fulminantes para a natureza e para o homem. Não acreditam? Exagerado? Nomeamos os “fulanos atores”:
O primeiro a apresentar chama-se pitorescamente “Rhyn­cho­porus ferrugineus”, um escaravelho aborrecido, natural da Ásia Tropical. Chegou até África e finalmente ao Continen­te Europeu, tendo entrado em Espanha no ano 1994. Corrói ra­dicalmente vários tipos de palmeiras. Quem não vê de forma chocante por todo o país palmeiras com os ramos baixos e ressequidos ou um tronco perdido e arrasado como triste testemunha de uma planta morta? Vistas lamentáveis.


Abusos e manipulações

Passado que foi o dia 24 de Fevereiro, encerrado o encon­tro sobre abusos sexuais contra menores, o “alarido” promo­vi­­do pelos meios de comunicação social (jornais, revistas, rá­­dio e televisão), emudeceu.
Já passaram nove dias sobre o encerramento do encontro. Que referências sobre o discurso do Papa Francisco, pro­­ferido no encerramento dessa magna reunião, foram escutadas nos noticiários que nessa semana, duma forma re­pe­titiva nos atordoaram com os escândalos, que, por pessoas idóneas foram analisados em procura de uma conversão?


O senhor ministro, os filhos e os enteados

Meses, dias e dias a fio. An­dava e andou desaparecido, qual coelho encurralado na toca, amedrontado pelos vociferantes zagalotes dos sindicatos de professores. Protegido e escudado pe­lo primeiro-ministro saiu agora, enérgico, da sua clau­sura, numa lufa-lufa de promessas eleitoralistas, para fazer figura na comunicação so­cial. O governo está em campanha eleitoral, já todos perceberam, mas o ministro da educação não precisava de a fazer à descarada! Na Comissão Parlamentar de Educação e Ciência, recen­te­mente, anunciou milhões de euros para gastar em dezenas de intervenções e obras em escolas por todo o país mas o frio, a humidade, as fissuras e o amianto a que se sujeitam diariamente as crianças e os jovens estudantes da Escola Básica e Secundária Vieira de Araújo não lhe merecem nem mais umas migalhas financeiras do Orçamento - 300 mil eu­ros - para requalificar um edifício do Estado com condições mínimas de qualidade.


Tachados sem tachos

Mensalmente chegam as fa­­cturas da luz, do gaz, da água, das operadoras, do su­per­mercado, da farmácia, do in­­fantário ou da creche, dos li­­vros e equipamentos para o estudo e formação dos filhos, dos lares de idosos, do café e do bolo na pastelaria e tantos outros.
O mês de ordenado tem de ser gerido à risca para não haver despesa mais do que receita, quando a receita por vezes é só de um, para pagar tanta coisa! E não pode dar um passo maior que a perna para não ter dívidas e para não andar a pagar mais prestações ou o aluguer da casa, que já de si, leva mais de metade do ordenado.
Nisso tudo vale a pena olhar as taxas e os impostos. Um dia destes reparei na fa­ctu­ra de um hipermercado e vi que trazia tanto de IVA como de produtos - e olhem que não fui aos produtos caros pois procuro a marca nacional e nego-me a comprar produtos importados.
Não sei como não usamos um rótulo na testa com esse tí­tulo: TACHADOS SEM TACHO?!


BICADAS DO MEU APARO

Ignorantes e no charco

Numa crónica de Dezembro de 2017, afirmei que “o Estado paga seis milhões de euros anuais, a 311 sindicalistas, sem sindicalizados”. Tal verdade, não entra no cérebro de pes­soas decentes e responsáveis. Tantos destes sindicalistas, recebem ainda certas quantias de entidades patronais, aju­das de custo e a muitos horas extraordinárias.
Sabe-se que os sindicatos em Portugal são como empresas com os seus funcionários, que pagam impostos. Os orde­na­dos, vem-lhes do que recebem do Estado e das quotas que os trabalhadores (sindicalizados) pagam voluntariamente. E se aqueles trabalhadores são funcionários do sindicato, como foram contratados? No movimento sindical, como se sabe, são trabalhadores que pagam quotas para serem de­fendidos, para que as suas (justas) reivindicações possam e devam ser atendidas, quer pelo patrão Estado, quer pelo patrão Privado. Ora em Portugal, é da história, não se de­fendem os trabalhadores: rigorosamente decretam-se greves em seu nome, mas sempre com fins políticos, onde as ne­gociações são como o vento que passa.