Entrevistas

Cem anos de vida e sabedoria

          
Cem anos de vida e sabedoria

Esquecemos muitas vezes de louvar e nos congratular com a sabedo­ria acumulada durante uma vida. Quando encontramos alguém que não deixa apagar memórias com vontade de saber mais e capacidades cria­tivas, comprovamos que é possível manter uma juventude de espírito por muitos anos.


D. Maria Gomes, reside no Lar da Santa Casa da Mi­sericórdia de Vieira do Mi­nho, desde Outubro de 2008, é natural da freguesia de Gondiães, concelho de Cabeceiras de Basto, on­de nasceu a 19 de Junho de 1920. Veio para o Lar, com o marido, para este po­der ter a assistência que sozinha não lhe podia prestar.
Enquanto o marido viveu, era à sua cabeceira, ou vi­giando discretamente se ele estava bem, que a podía­mos encontrar.
O testemunho dum grande amor não precisava de pala­vras. Mas também essas não faltaram: «Peço todos os dias ao Senhor que me deixe viver enquanto o meu marido precisar de mim». E perguntava-nos se nisso não havia egoísmo. A sua de­­licadeza interior levava-a a confidenciar que o trata­vam bem, e se morresse primeiro, nada lhe iria faltar, a não ser aquilo que só ela ti­­nha possibilidade de dar: o amor e carinho prometido solenemente.
Viveu o luto da viuvez no Lar, com a “família” em que se integrou.
Participou ativamente em mui­tos projetos e ações de pro­moção cultural para pes­­­soas da sua faixa etária, sempre com um entusiasmo que a todos admirava.
Gostava de ler, conversar e fazer crochet. Sem neces­si­tar de óculos, continua a fazer renda.
A sua serena alegria exul­ta, quando algum dos familiares a vem visitar. Se, da França algum chega, o seu en­tusiasmo transborda. Re­co­mpensa-os sempre que po­de. Com um misto de alegria e receio (porque estava muito frio), ano a ano dava a notícia: «Vou passar o Na­tal a França». A família me­recia o sacrifício e a D. Maria confiava em Deus…
O Jornal de Vieira, onde a D. Maria tem admiradores e amigos quis entrevista-la e partilhar com os leitores o testemunho que nos deu.
Jornal de Vieira: (JV) Cem anos, são um marco importante na vida de qual­­quer pessoa. O que sente ao tomar consciência dessa graça?
D. Maria: - Sinto-me mui­to feliz. Não estou perto do meu filho, mas aqui no Lar da Santa Casa, para on­de vim com o meu marido, que infelizmente já faleceu, sinto-me muito bem. Sou muito estimada e são todos muito meus amigos.
Nunca pensei chegar a es­ta idade. É uma alegria muito grande, e eu não posso dei­­­xar de agradecer a Nossa Senhora, por sempre me dar força e ajudar a chegar até aqui.
JV:- Quer falar-nos das melhores re­corda­ções que guarda?
D. Maria: - Uma vida de mui­to trabalho. De muita fe­­licidade também. Fui mui­­to feliz no casamento. Vi­­vemos a grande alegria de ver regressar da Guiné, o nosso Filho, que esteve na Guerra do Ultramar. Pensei muitas vezes que podia não voltar a vê-lo, porque muitos morreram lá.
O dia em que partiu foi o dia mais triste da minha vi­da. Chorei então muito.
Graças a Deus regressou e hoje está bem. Ele e a minha nora são muito meus amigos.
JV- Que conselhos gos­taria de dar aos mais novos?
D. Maria: - Amem Deus e o próximo. Isto já é tudo. À minha neta que vive mais perto, digo-lhe que eduque os filhos como eu os eduquei. Assim serão felizes co­mo eu tenho sido.
À pergunta final sobre o que mais desejava ao iniciar o segundo século de vida, respondeu-nos que esperava que Deus continuasse a protegê-la.
A D. Maria, além do Filho, tem dois netos, sete bisnetos e um tetraneto.
No Jornal de Vieira conquistou também simpatias. Quando os utentes do Lar, tiveram de mudar residência na sequência de obras de beneficiação, a D. Maria foi com outros para as ins­ta­lações do Centro Cultural de Caniçada.
Ali, fez questão em sentir-se “paroquiana”. Eram frequentes as conversas com o Diretor do Jornal, terminada a Missa. O Padre Luís Já­come foi mais um amigo que trouxe no coração e de quem nos falou muitas vezes, inquirindo sempre pela sua saúde.
É com muita alegria que damos graças a Deus pelo dom duma vida longa, de­se­jando a continuação da saúde e entusiasmo desta querida senhora.
2020-06-29


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