Opinião

Bucos e o Museu - “a casa de lã”

          

Recentemente, através do livro “Vieira do Mi­nho: Notícia Histórica e Descritiva” edição fac-simile da edição de 1925, da autoria do Pe. João Carlos Alves Vieira foi-me possível re­fletir a conjuntura do tempo em que o mesmo viveu e a for­ma como a descreveu, que considero surpreendente pela sua con­cretização e objectividade. No capítulo “Vieira Indus­trial” (pag.100), o autor considera que é em Agra, freguesia de Rossas, onde se situa a primeira fábrica do Ave “o cha­ma­­do Pisão”. Descreve-o numa “casa modesta, escondida en­tre ramaria e sepultado lá no fundo de um esconderijo, para on­de se desce por um atalho estreito e mal ajeitado, mas que tem reunido mui­tos contos de rei”. No Pi­são faziam-se prin­cipalmente as “mantas de lã de ovelha do concelho”, mas também se faziam outros trabalhos, co­mo a preparação de “excelente burel para roupa de vestir, polainas, ca­pu­chas, etc. Eram bastantes as operações por que passava a lã até tomar a forma de lã”.


Além do Pisão de Agra, havia um outro na freguesia dos An­jos. Diz ainda que era possível que houvesse mais no con­celho, o que dá a entender não ter indicação concreta de outras existências. Porém, na freguesia de Bucos, “que é de Basto, mas chegada ao concelho de Vieira, diz haver ali três Pisões”. Esta descrição indicia o desenvolvimento da indústria de tecelagem artesanal que nesse período pro­gre­dia na região, mostrando, por outro lado, ser constituída por pessoas inovadoras e determinadas sem o que não seria possível investir nesse domínio.
A minha reflexão surge a propósito de notícias que ulti­ma­­men­te passaram na comunicação social sobre a produção da lã na freguesia de Bu­cos, classificada como um produto de referência internacional, o que indicia ter havido continui­dade na produção que vinha do tempo em referência, e que os seus conti­nua­­dores se ajustaram a novas exigências de mercado.
A empresária Rosa Pomar, empreendedora e investiga­do­ra da malha nacional, “que faz dos fios de ovelha de raças au­tóctones um negócio internacional”, em entrevista ao “Jornal Expresso de 16 de junho último” re­ve­lou como caminha o mercado da lã tradicional nacional. Das marcas por ela co­mercializadas, a “marca Bu­cos” é uma das suas referências. Segundo ela “é proces­sa­da à mão e fiada em fu­so ma­nual por mulheres minho­tas, a partir de lã de ovelhas da ra­ça bordaleira de Entre-Douro-e-Minho.
O programa da RTP “Portugal em Direto”, transmitido re­cen­temente surpreendeu com a reportagem sobre o mu­seu de Bucos - “a Casa da Lã” - projeto idealizado, cons­truí­­do e colocado em actividade pelo presidente da freguesia conjuntamente com a Câmara. A informação tornada pú­­blica mostrou a importância e o interesse que a lã continua a ter na economia familiar local, sendo uma mais-valia fun­damental numa zona de base rural pouco diversifica­da. Re­ferenciou por outro lado a função cultural e social que atra­­vés de actividades desenvolvidas no museu a população passou a ter acesso, cons­tituindo um espaço de encon­tro onde se ensina e se aprende, e onde se desenvolve a ci­­dadania. Um exemplo a ter em consideração.
Elisa Soares
2019-02-27


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