Opinião

BICADAS DO MEU APARO

Imberbes e jactantes

          
BICADAS DO MEU APARO

Li um destes dias um documentário que me deixou pensativo, pois tratava-se de um texto/ tema que nunca tinha pensado, e nunca tinha feito nada para saber como era o povo português, embora tivesse alguns conhecimentos sobre a origem do povo que somos. Afir­mava o autor do texto que “o povo português é uma cal­deirada”. Nós portugueses, dizia, somos “uma mistu­ra de mou­ros, de romanos e de africanos”. E fundamentava a nossa origem concluindo que somos por isso mesmo, “únicos no mundo”.
Não estou minima­me­n­­­te habilitado para di­­­zer se somos mais ro­ma­nos, ou mais mouros, ou mais africanos. Mas aceito que se diga que somos uma “caldeirada”. Uma inclinação temos: vivemos convencidos de que somos espertos, inteligentes, sabi­dolas e, co­mo qualquer ca­maleão, ada­pta­mo-nos a qualquer zona ou convivência social. Pensemos nos novos partidos políticos que dizem representar-nos. Uns, sau­dosistas dos totalitarismos quer de esquerda quer de direita. Outros, sonhadores de uma sociedade uto­pis­ta. To­da esta gente, incluindo nomeações “às resmas” de “es­pecialistas” com vin­te e pou­­cos anos de idade, nos cor­­redores do poder, não pas­sam, salvo melhor opinião, de imberbes e, mau de mais, jactantes que sufocam a quem por eles passa a horas ou fora d’horas.


Quem são os comentadores das nossa televisões? No desporto temos os mais sabidos, os mais altos comentadores desde a qualidade da relva até às vestimentas dos jogadores. Tudo sabem, tudo explicam e tantos, tantos, nunca foram profissionais da bola e muito menos foram ou são treinadores de nada. Nas bancadas vivem-se as mais belas manifestações da sabedoria futebolística: berros, assobios, ex­­troversões, calão, etc. Nas manifes organizadas ou não, todo o mundo sabe para o que vai, o que quer e porque se in­tegra nelas. Temos ainda os comentadores não despor­ti­vos:
conhecem todas as ideologias políticas, todos os segredos de Estado, dos agentes da politica, do futuro do país, dos cancros que o país vai ten­­­do e vai curando. Todos sa­bem tudo e nenhum desconhece seja o que for. Olhados à lupa todos estes comenta­dores/caldeirada, muito poucos são os que sabem educar, formar, ter posse da sabedoria e poucos sabem distribuir valores ou virtudes humanas que qualquer povo deve adquirir, para bem da comunidade.
Portugueses, dizia o cien­tis­­ta do tema acima citado, “uma caldeirada”. Donde vem a inteligência daqueles que disseram que a mãe que deitou ao lixo o filho, era culpa da sociedade? Toda a sociedade tem culpa, a mãe deveria ser isenta de quaisquer culpas, diz essa caldeirada. A deputada da Assembleia da República que tem a pouca sorte de não se exprimir aos seus pares e ao povo português, por gaguez, não é culpada. Culpados são os seus eleitores e quem a apresentou aos eleitores. A deputada, não tem culpa, não sabia que gaguejava e desconhecia que, para representar o povo português, não fazia diferença ser imberbe, mas podia ser jactante.
Somos um povo género “cal­deirada”, afirma-se. De­bru­cemo-nos sobre a libertação de Lula da Silva, brasileiro. Que dizem os “especialistas e os sábios” sobre o Lulis­mo? Grande homem, grande político, grande progressista, foi um preso político, um perseguido, etc. Nenhum desses “sábios” comentadores ou jornaleiros, disse que o Lu­lis­mo iniciou a corrupção, lhe deu guarida, a expandiu, beneficiou dela e que pelas mãos da corrupção que criou, foi abatido. Mas de Bolso­na­ro, o brasileiro”– politico que na verdade não aprecio - diz-se de tudo que é mau, para es­panto de quem lhe deu milhões e milhões de votos!
Todos sabemos tudo e ninguém desconhece nada, nesta “caldeirada” humana portuguesa. Somos um povo avançado, atento às necessidades de qualquer região e atentos a todos os perigos que nos possam chegar. Daí, termos a necessidade de não nos deixarmos embrutecer com as histórias depreciativas de animais. Há que defender essas criaturas de Deus até à exaustão. Histórias contra ani­mais, devem ser proibidas já. Todos os provérbios alusivos a animais também, pois destrói as suas personalidades, banaliza-os e há que apoiar a cultura ani­ma­lesca. Não deve dizer-se jamais que temos de paralisar ou amarrar o touro pelos cornos; não podemos dizer querer ter um pássaro na mão ou dois a voar; não podemos dizer ma­cacos me mordam, pois estas criaturas não mordem nem atacam; não podemos dizer onde quer que seja, vai-te embora ó melga, etc.
Pelo que se expõe, povo de espertos, inteligentes e sábios, é de crer que os imberbes e jactantes não sejam tantos como se pensa, pois gente tipo caldeirada como nós - única no mundo – tem razões para serem fortes – como os mouros; civilizados e austeros como os da antiguidade romana; e admiradores da liberdade – como os africanos.
(O autor não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico)

(Artur Soares escritor d’Aldeia)
2020-01-29


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